sábado, 5 de agosto de 2017

Crítica: Dunkirk (2017)


GUILHERME W. MACHADO

Ao dar uma entrevista sobre a versão estendida do relançamento de seu Aliens - O Resgate (1986), James Cameron a descreveu, muito habilmente, como "alguns quilômetros a mais numa estrada ruim", referindo-se ao ritmo intenso e sufocante de suspense do filme. Não parece ser muito diferente do objetivo que move Christopher Nolan na realização do seu novo Dunkirk: o de fazer um filme de guerra pelo prazer estético e sensorial de fazer, sem construção de personagens, sem nenhuma mensagem plenamente formada, quase sem um enredo propriamente dito. Apenas quase 2h de uma estrada ruim, ou de um voo turbulento.


Não que não haja nenhum sentido por trás do filme, mas sim que não é nenhuma possível construção de sentido o que o move. Dunkirk é uma história de guerra sem heróis, um retrato de combatentes anônimos, a maioria inclusive sem nome, e nenhum com qualquer história de vida pessoal. Sua anonimidade é tanta, e tão claramente intencional, que não os reconhecemos por uniforme nem por língua  pelo visto nem eles mesmos o fazem , estamos perdidos durante boa parte do filme sobre quem é o que. Não chegamos a ver um soldado alemão sequer e, à parte de alguns poucos aviões de bombardeio, o inimigo é uma ameaça invisível, onipresente, que sempre configura um perigo imediato sem nunca mostrar-se. Se Nolan faz algo bem em seu novo filme é transmitir a vulnerabilidade da situação que retrata.

Em Dunkirk, no litoral da França, a cidade-título não é nada se não um grande playground de explosões, tiros e ataques inesperados. Não estamos acompanhando a situação política ou militar da guerra naquele momento e francamente nem nos interessa, estamos nessa pelo espetáculo de violência e suspense. Se Nolan sempre foi ao mesmo tempo criticado e elogiado (seguramente não há cineasta mais polarizado no cenário atual) pelas suas pretensões de inserir conteúdo "inteligente" em seus filmes populares, em Dunkirk ele joga tudo pro alto e parte para um exercício puramente cinético, entrando muito mais na área de um Paul W.S Anderson do que de um Stanley Kubrick (comparação sem pé nem cabeça que insistem em tentar sustentar).

O problema é que Nolan não é Paul W.S Anderson, muito menos um Michael Mann (discutivelmente o melhor cineasta de ação de todos os tempos), e seu filme insiste em manter uma elegância de quem realmente gostaria de ser um Kubrick, ao invés de meter a cara na lama e sujar as mãos, como faria o tão desdenhado diretor de Pompéia (2014). Dunkirk não tem problemas em manter a tensão, nem em proporcionar as tão esperadas cenas grandiosas de batalha à lá "soldado ryan", mas carece de uma simplicidade narrativa que tornaria toda ação muito mais envolvente. E por simplicidade me refiro a estrutural, não a intelectual (pois aqui não há e nem deveria haver complexidade). Tudo bem que as montagens em paralelo já são uma marca de seu cinema, a qual ele executou com competência exemplar na trilogia O Cavaleiro das Trevas (2005, 2008, 2012) tranquilamente seu maior feito cinematográfico até então , mas aqui ela só serve como distração, como forma de fragmentar blocos de ação que funcionariam plenamente sozinhos e que agora tornam-se confusos na sua temporalidade. Uma preocupação desnecessária a se passar para o espectador, ao invés de simplesmente deixá-lo aproveitar a ação pelo que ela é.

Dunkirk no fim é um competente thriller de guerra que proporciona o que promete: uma boa sessão na sala de cinema. Criticá-lo além disso parece tão exagerado quanto exaltá-lo pelo que não é. Um filme de guerra amarradinho, politicamente correto sem sangue ou palavrões (um sacrifício semântico, se não artístico, que denuncia um certo caráter mercenário de permitir audiências mais amplas nas salas de cinema), e de pouca personalidade, mesmo que bem executado, pode ser travestido com todos discursos que queiram atrelar, mas nunca será uma obra-prima e, se fosse mesmo o melhor filme do ano (não é, ainda bem), isso falaria mais sobre uma hipotética crise do cenário cinematográfico atual do que sobre a própria qualidade do filme que, repito, é bom, e de muitas formas um avanço na carreira de Nolan, ainda que ele tenha feito melhores.

  NOTA (7.0/10):

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