terça-feira, 13 de junho de 2017

Crítica: Sangue Negro (2007)


GUILHERME W. MACHADO

Daniel Plainview é o sonho americano. Não a versão sonhadora dele; a versão real. O “self-made man” que vê as pessoas ao seu redor como obstáculos na sua busca por realização pessoal. Ele é o homem que, saindo do nada, trabalhou duro e conquistou a fortuna e o respeito que, na “terra das oportunidades”, é prometida àqueles que arregaçam as mangas e tomam conta do seu destino. O problema – e Sangue Negro ilustra isso magistralmente – é que, no processo, ele acaba tomando também conta do destino de outros, e a verdade é que o sonho americano do homem que simplesmente baixa a cabeça e se esmera no seu ofício é uma farsa.


Não é meramente o trabalhador esforçado aquele que alcança o sonho, é o homem que está preparado para fazer qualquer coisa pra chegar lá. Me lembra sempre uma das minhas frases preferidas de Cidadão Kane (e provavelmente do cinema): “Não é difícil conseguir muito dinheiro, desde que tudo que você queira na vida é conseguir muito dinheiro”. Sangue Negro é, de muitas formas, a versão ilustrada das implicações que vem com essa frase. E, como o título original anuncia: haverá sangue.
Por outro lado, mesmo com o retrato dos valores que fundaram a base cultural dos Estados Unidos que conhecemos hoje, a obra-prima de Paul Thomas Anderson também é (e muito) um filme sobre o indivíduo, não só sobre a nação. A complexidade do personagem principal é riquíssima, seja na sua relação com seu filho ou apenas consigo, com todas suas tendências autodestrutivas. A visão de mundo de Plainview, em sua plena misantropia, não deixa de ser uma máscara na sua luta contra seus demônios internos. Luta que busca na bebida um breve cessar-fogo, mas que chega a temperaturas altíssimas quando pontos específicos (sempre relacionados a família, seja na relação com o irmão ou filho) são provocados.

Para o sucesso do filme, e desse denso estudo de personagem, Daniel Day-Lewis produziu um verdadeiro milagre. Sua entrega ao papel é completa, ainda maior que o padrão já estabelecido para ele. E, por mais que haja ali uns 3 momentos de excesso dramático (magistralmente interpretados, sem dúvidas), o brilhantismo encontra-se mesmo nos detalhes, nas expressões fugazes, nos momentos de silêncio, na postura corporal que carrega todas as lesões de seus tempos de minerador autônomo. Paul Dano, por sua vez, não pode ser ignorado (embora tenha sido pelas premiações) e segura com louvor a onda de contracenar com uma das melhores performances de todos os tempos.  
Existem muitos filmes dentro de Sangue Negro, que ainda pode ser lido como uma alegoria para as relações entre o capitalismo e a religião (e o impacto dessas na construção da nossa sociedade contemporânea). E é muito divertido – só pela figura de linguagem, pois divertido não é uma palavra apropriada aqui – ver a atenção que ele consegue dar a todos. Passando longe da banalidade, ou da dispersão temática, PTA consegue expor uma visão de mundo sombria, consistente, e excepcionalmente bem construída dentro do seu universo.


Sangue Negro é uma nova tentativa no desgastado cinema de autor americano, que nunca contou exatamente com o apoio do público e agora conta cada vez menos conta com o dos cinéfilos, que cada vez mais só reconhece como autores os vulgar auteurs – mestres como Paul Verhoeven ou M. Night Shyamalan, que são injustiçados pela crítica há tempos – e deprecia os cineastas mais “neoacadêmicos”, por assim dizer. Não pretendo entrar nos méritos dessa discussão que já se alonga alguns anos (pois é justamente a polarização dela que incomoda), mas acredito que certas coisas não perdem seu valor, e Sangue Negro é um filmaço.

  NOTA (9.0/10):

2 comentários:

  1. Filmaço. O começo é sensacional, e é tão bem filmado que até meus pais que são bem chatos pra filmes, olharam sem piscar, mesmo sem ter fala, nem explicação. O filme vai nessa onda que vc falou mesmo, Eua e capitalismo, que também tem o dedo da religião como você cita, se não me engano de Calvino, que diz mais ou menos que o dever do cristão é trabalhar, trabalhar , trabalhar, mesmo sendo o protagonista um ateu, mas foi esse espírito de trabalho e busca de riquesa que , para o bem ou para o mal ( e que mal), formou os Eua. De Lewis vem aí no novo filme desse diretor.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Sim, Gabriel, ansiedade alta desde já pela nova parceria entre eles: Phantom Thread

      Excluir