quarta-feira, 1 de março de 2017

Crítica: No Silêncio da Noite (1950)


GUILHERME W. MACHADO

Difícil é encontrar cinema mais verdadeiro do que o de Nicholas Ray. Mesmo em seu momento mais visualmente maneirista (mais pela natureza do gênero do que por qualquer outro motivo), Johnny Guitar [1954] é uma obra que transborda emoção, raiva e paixão dos seus personagens, num turbilhão alucinante que mantém a intensidade do início ao fim. Um filme glorioso, nem preciso dizer. No Silêncio da Noite, frequentemente aclamado como sua obra prima, e não sem motivos, figura entre os exemplares cinematográficos mais amargos da solidão humana numa grande cidade.

Dixon Steele é um personagem fraturado, trágico. Um homem verdadeiramente sozinho, cercado por pessoas da indústria de cinema – é um roteirista renomado – a quem despreza. Mais do que isso, é um homem perturbado, de traços quase sociopáticos, que acha, num mar de pessoas que é Los Angeles, “a mulher que procurava”, “aquela diferente das outras”; mulher por quem se apaixona perdidamente. E não podia ser nenhum rosto, se não a face marcada de um Humphrey Bogart que já carrega no ombro o peso da própria figura, a representar esse personagem tão melancólico e intenso.
No Silêncio da Noite nos mostra uma Hollywood bem diferente de, digamos, Cantando na Chuva [1952], ou diversos outros clássicos desse período. Por mais que não seja o foco do filme, Ray pinta um retrato bem mais cínico de uma cidade que preza a fama sobre o talento, que cria ídolos apenas para esquecê-los. O artista de Ray não é uma figura glamuralizada, e sim um ser perturbado, que vê as tragédias da vida real não com pesar, mas com a excitação (ou desinteresse) que elas gerariam caso ocorressem num filme. Alguém que usa dessa sua condição para justificar seu comportamento inadequado, que tem, aliás, plena ciência do absurdo dessa sua “prerrogativa” e a usa deliberadamente como forma de provocação.

Visto como um filme noir, No Silêncio da Noite está menos inserido nos moldes do gênero que a média. Gloria Grahame – ótima no papel – passa muito pouco por uma femme fatale, e o lado investigativo e pulp do filme é bem mais secundário do que o de costume no noir. Claro que a natureza do romance, o tipo de encenação e o caráter cético dos personagens apontam o filme nessa direção (muito como acontece com Crepúsculo dos Deuses), mas ele está bem mais próximo de um Samuel Fuller do que, digamos, de um Edward Dmytryk.

Obra-prima, com atuação monumental de Bogart e condução brilhante de Ray, No Silêncio da Noite é um filme nada suntuoso, mas sim de apreciação silenciosa. Não tem o caráter operístico que marcou tantos clássicos da época, nem o charme e sagacidade dos noir mais “tradicionais”, mas é um filme que articula sensações profundamente envolventes e sentimentos intensamente reais, que apelam até às almas mais secas, talvez especialmente a essas.

  NOTA (9.0/10):

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