sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Crítica: La La Land (2016)



GUILHERME W. MACHADO


Muito curioso que na premiação do Globo de Ouro, domingo passado, tenham falado e repetido tanto da coragem dos produtores de terem bancado um “musical contemporâneo”. Curioso porque de contemporâneo La La Land só tem o ano (o filme se passa nos tempos atuais), mas toda roupagem, toda abordagem, até mesmo a temática, TUDO remete ao passado, principalmente aos musicais de Gene Kelly dos anos 50 e aos de Demy nos anos 60. A verdade é que retrô está em moda, Stranger Things surfou nessa onda em 2016 e La La Land aproveita uma vibe semelhante. Mesmo que poucos dentro daquela lotada sessão de cinema conheçam, realmente, os filmes de Kelly e Demy – assim como muitos não pegaram metade das referências oitentistas da série da Netflix –, ninguém ousaria falar mal. É um tributo, oras, e isso não é difícil de identificar.


Isso não é para dizer que não gostei do novo fenômeno de crítica e público do jovem Damien Chazelle (Whiplash), ao contrário, confesso que a experiência foi bem agradável, é só uma observação mesmo sobre as recentes tendências. A verdade, todavia, é que, por trás de todo deslumbre – e não vejo porque não apelar para o exibicionismo num filme desses, quando é, inclusive, o que esperamos ver –, há algo de paradoxal que incomoda um pouco em La La Land, embora o final faça um bom trabalho na resolução dessas questões.
Existe um forte contraste tonal entre a vibe feel good do tão anunciado “filme de sonhadores” com a faceta romântica-melancólica, importada diretamente do clássico Os Guarda-Chuvas do Amor (Jacques Demy, 1964) que claramente serviu de grande influência para Chazelle, o que não permite que o filme abrace nenhuma das duas por inteiro. Há temas e abordagens que funcionam em conjunto, mas nesse caso, o conflito entre a postura de seriedade sobre os temas tratados e a leveza, que é privilégio adquirido dos musicais, causa ruptura. Em resumo, a tolice do velho clichê do artista-sofredor-sonhador não combina com a almejada maturidade da abordagem sobre as relações românticas e como elas são afetadas pelo tempo.

O desfecho, entretanto, é um grande acerto. Ao mostrar um caminho alternativo para os eventos decorridos no filme, Chazelle permite ao espectador escolher: então, o que vale mais a pena? E não é uma pergunta tão óbvia assim, mesmo que o nosso primeiro instinto aponte diretamente para um lado emocionalmente mais “óbvio”. Há, ali, uma possibilidade de negação ao resto do filme que achei bem interessante, mostrando que a vida não precisa ser tão colorida para ser bem vivida, é tudo uma questão de escolha, mas não de UMA escolha, e sim de uma série de pequenas bifurcações no caminho.
Por mais que não seja meu foco, tenho que adereçar algum espaço para os números musicais. Nesse aspecto o filme tem de tudo, há os números virtuosos, como a grande sequência musical de abertura filmada em plano único – que provavelmente usou CGI para esconder os cortes, mas não sei ao certo –, tem os intimistas, tanto solo de Stone quanto de Gosling, tem o número romântico fantasioso (adivinha se eles não saem voando?) e até o clássico sapateado, que é muito bem coreografado. O maior sucesso do filme como tributo ao gênero e os seus clássicos está justamente na condução dessas cenas musicais, nas quais Chazelle consegue incorporar quase tudo: Kelly, Minelli, Demy...

La La Land é, e não nega ser, um produto comercial, que veste seus defeitos como uma capa para que não possam ser usados contra ele, mas pelo menos ele assume seu papel e tenta desempenha-lo ao máximo, com todas piruetas, maneirismos, visual extravagante, clichês e, inclusive, momentos de seriedade (especiaria que a modernidade agregou ao mainstream) exigidos a um filme “de Oscar”. E não vejo pecado nisso, fui aliás, um dos poucos defensores de Birdman no meu meio, mas cada filme tem que ser reconhecido pelo que é, e o fato é que La La Land foi feito para agradar. Embora muito abordado como um resgate do musical clássico (o que, invariavelmente, é), me pareceu muito mais como um anti-Cidade dos Sonhos, sendo, em todos aspectos, o ingênuo reverso da potente crítica Lynchiana sobre o sonho Hollywoodiano. Um filme pronto para ser adorado, e é inegável o quão lindas são suas imagens, mas não muito mais do que bom.

  NOTA (7.5/10):
 

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