quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Crítica: Sob o Signo de Capricórnio (1949)


GUILHERME W. MACHADO

Acredito que tenha sido um impulso subconsciente – embora não possa afirmar que não foi, de fato, uma escolha consciente – que levou Alfred Hitchcock a tantas vezes retratar a angústia de mulheres presas pelo casamento ou convenções sociais. Parando pra pensar, é um tema bastante prolífico na carreira do diretor, com uma listagem de obras surpreendentemente extensa, mas nunca de forma tão frontal quanto em dois filmes: Interlúdio [1946] e esse Sob o Signo de Capricórnio [1949]. Filmes que compartilham, além do diretor e desse tema específico, da mesma atriz, Ingrid Bergman.


É realmente tentador classificar Sob o Signo de Capricórnio como um "Hitchcock menor", afirmação que mais ignora as qualidades do filme do que celebra as dos seus maiores clássicos. Geralmente visto por espectadores já bem acostumados com o célebre diretor, costuma ser varrido para baixo do tapete de obras primas do mestre. Seguramente, a maior maldição do filme não está nele próprio, e sim no fato de ter sido feito por Alfred Hitchcock, herdando todas implicações que vem com o nome (não é, afinal, um filme de suspense, como espera o público). E, embora injusto, é normal, confesso que também precisei de uma segunda conferida para apreciar essa peculiar incursão de Hitchcock no melodrama de época, dessa vez sem expectativas, apreciando simplesmente aquilo que estava à minha frente, e não procurando outro Vertigo [1958] ou, pelo tema, um Rebecca [1940].

Sob o Signo de Capricórnio é Hitchcock num dos momentos de maior experimentação dentro de sua mise-en-scène. A câmera flutua pelos imponentes sets, seguindo personagens, descendo corredores, subindo escadas... Há um apreço pelo plano-sequência, herdado do recém feito Festim Diabólico [1948] – uma de suas obras primas máximas –, que aqui já se mistura com o apurado senso de decupagem do diretor, fazendo desses planos não o próprio alicerce do dispositivo cênico, como foram no filme anterior, mas partes de um vigoroso  exercício de adaptação de Hitchcock em relação à sua própria forma de dirigir.
A história acompanha um triângulo amoroso nos primeiros tempos da Austrália colonial. Há todo um jogo de segredos, invejas e culpas que tecem um estranho estudo de personagens. Sim, há estranheza no enredo de Sob o Signo de Capricórnio, que pode incomodar justamente pela eventual falta de clareza do rumo que o filme pretende seguir. Por outro lado, é um cenário rico em intrigas, com uma coleção de personagens moralmente ambíguos e que transbordam sentimento, trazendo toda uma urgência para sua situação. A falta de “bom mocismo”, o fato dos personagens serem falhos e tridimensionais, é um grande achado do filme.

Curioso que a irregularidade de Sob o Signo de Capricórnio se dá justamente no contraste entre os dois ambientes que o filme parece ocupar. Está no seu melhor quando nos coloca dentro da mansão onde habitam os únicos personagens realmente relevantes (o quarteto formado pela governanta e o triângulo amoroso) – e a intimidade com a qual Hitchcock nos mostra os conflitos desse bloco justifica a escolha pelos planos sequência, cuja necessidade é questionada por alguns. Os problemas do filme aparecem no mundo exterior, ou por intervenções deste, que não passa muito de uma fastidiosa vitrine de caricaturas e cacoetes de filme de época.

Um ótimo filme pode parecer pouco vindo do maior diretor de todos os tempos, mas ele é, ainda, um ótimo filme. Como na carreira de todo grande diretor, sempre tem aquelas obras que recebem tratamento injusto precisamente pela grandiosidade de seus realizadores. Sob o Signo de Capricórnio é, talvez, o mais subestimado filme de Alfred Hitchcock.

  NOTA (8.5/10):

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