terça-feira, 29 de novembro de 2016

Crítica: Creepy (2016)


GUILHERME W. MACHADO

O terror vem de dentro. Retomando a cartilha de um dos seus filmes mais aclamados, Cure [1997], o mestre japonês Kiyoshi Kurosawa volta ao tema dos serial killers em Creepy [2016], depois de uma década longe do cinema de horror. Sou fã declarado do diretor, embora infelizmente ainda não tenha conseguido ver alguns de seus filmes, e o que chama mesmo atenção em seus trabalhos, acima dos enredos, que não fogem tanto assim dos padrões do gênero, é a peculiaridade de sua mise-en-scène, a forma diferenciada de como ele conduz suas histórias visualmente.

A paciente câmera de Kurosawa, com seus planos meticulosamente compostos, geralmente distantes e lentos, exerce uma atração hipnótica sobre mim. Vai na contramão de tudo que se vê nos filmes de terror ou nos thrillers contemporâneos, que cada vez mais apostam em câmera de mão e no fastidioso found footage (que ganhou ainda algum fôlego com o ótimo A Visita, do Shyamalan). Os artesãos do horror, como Roger Corman, Mario Bava ou John Carpenter, são uma espécie em extinção, as imagens não são mais um objeto de contemplação, seu caráter é mais imediatista e oportunista agora, um mero meio para conseguir mais sustos ou mostrar quão avançados são os efeitos de CGI que o cinema de horror dispõe atualmente. Em Kurosawa não.
Bom, chega de choradeira... Creepy. O conceito do filme – acusado por alguns de ser básico, coisa que não concordo –, além de altamente perturbador, é bastante curioso. Muito como em Cure, o mal figura aqui como algo passivo, uma figura provocadora que, num processo quase hipnótico, desperta o pior dentro dos outros e os utiliza nas suas atrocidades. O horror, portanto, vem de dentro das próprias vítimas, de dentro da típica família urbana japonesa. Não há como negar o quanto do filme conversa com os costumes locais, é a exemplar educação japonesa que diversas vezes impede que toda situação seja evitada com um pouco de grosseria – taí um serial killer que teria pouco sucesso aqui, não? – lembrando um pouco aquele momento do Millennium [2011] de Fincher, em que o protagonista, evitando fazer uma desfeita, entra na casa da pessoa que acredita ser um assassino.

[SPOILERS nesse parágrafo]
Dos fatores que mais me intrigam nesse enervante thriller – que, principalmente na reta final, chegou a causar insatisfações manifestadas em voz alta na minha sessão – é o singelo momento em que o (ex)detetive mostra a foto do serial killer para a moça cuja família foi assassinada 6 anos antes, e de modo semelhante, e essa enfatiza não ser esse o homem responsável pela morte de sua família. Estaria Kurosawa querendo demonstrar alegoricamente um mal, ou talvez apenas um costume, que, ao contrário de específico e isolado, poderia ser comum no Japão atual? Evidente que todo esse modus operandi do serial killer é uma fantasia elaborada, mas nada impede que a metáfora refira-se a outra coisa que não tenho a bagagem sociocultural para apontar (moro, afinal, a milhares de km de distância).
[Fim dos SPOILERS]

Há um desconforto sensorial magistralmente administrado em Creepy, uma sensação de problema iminente que se manifesta mesmo nos ambientes aparentemente tranquilos do filme. O vento é o suficiente para desestabilizar a calma na vizinhança, como se trouxesse uma coisa errada no ar. Há algo incômodo que ninguém ousa supor por um bom tempo; personagens recusam os indícios (afinal, qual a probabilidade?) e seguem o estranho suspeito por um sinistro corredor que certamente não dá para a cozinha, ou para o quarto de dormir.
Creepy pode até ser um “Kurosawa menor”, e muito disso deve-se não aos méritos e deméritos do filme em si, e sim ao fato de ele encontrar um predecessor – com o qual guarda mais semelhanças do que o acaso permite – na filmografia do próprio cineasta, mas é ainda um ótimo filme num gênero cansado. A forma de filmar do diretor é suficiente para destacá-lo sobre a maioria, mesmo num filme em que ele se permitiu algumas liberdades que fogem um pouco do seu estilo habitual.

  NOTA (8.0/10):

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