segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Crítica: Comboio do Medo (1977)


GUILHERME W. MACHADO

Incrível como, de um mesmo livro, Clouzot e Friedkin fizeram filmes tão diferentes. O núcleo da história pode até ser o mesmo, mas não passa disso. Pra quem não sabe, Comboio do Medo [1977] é um remake do clássico francês O Salário do Medo [1953], de Henri-Georges Clouzot – que na época surgia como um “novo mestre do suspense”, um Hitchcock francês. Enquanto em 1953 havia toda uma preocupação com um jogo de nuances sobre os personagens e os passados que os levavam até ali, em 1977 Friedkin rasga tudo isso e estabelece francamente um cinema de danação: não é a especulação que ele almeja, e sim a essência de toda raiva e brutalidade envolvidas nesse processo de purgatório.

Se O Salário do Medo é frequentemente acusado – e com certa justiça – por demorar muito para chegar ao ponto (a travessia com os caminhões só começa com cerca de 1h30 de filme), Comboio do Medo passa longe disso, partindo já de um violento prólogo mostrando os crimes que levaram os 4 motoristas àquele fim do mundo. A principal razão para essa diferença está no teor político, que na obra de Clouzot assume tons discursivos, e por isso a introdução ocupa a maior parte do filme, enquanto no trabalho de Friedkin figura apenas como pano de fundo, algo que permeia todo filme sem nunca tornar-se protagonista. E não por isso um é menos profundo que o outro, pelo contrário, certas coisas são melhores ditas em silêncio.
Comboio do Medo é um filme de ações, há todo um detalhamento do processo físico que é herdado já do clássico francês, encontrando aqui toda sinistra peculiaridade da direção de Friedkin – possivelmente sua melhor.  A paisagem desértica de outrora é trocada pela chuvosa floresta tropical, cenário pantanoso no qual o diretor, junto dos seus diretores de fotografia, estabeleceu uma pegajosa atmosfera de podridão, um verdadeiro inferno chuvoso. A natureza, em oposição à postura desenvolvimentista do homem, desempenha papel fundamental, sendo nesse aspecto muito próximo do cinema do alemão Werner Herzog, como Aguirre, a Cólera dos Deuses [1972] ou Fitzcarraldo [1982].

Tecnicamente, é um filme que não deixa a desejar ao clássico mais popular do diretor: O Exorcista [1973]. Apesar da diferença de abordagem ser bastante radical – sendo o primeiro filme construído de forma mais “clássica”, enquanto esse deixa a raiva e a brutalidade ditarem mais a sua mise-en-scène para um aspecto bem mais moderno – são duas obras de imenso rigor estético. A montagem e a fotografia, especialmente, brilham. O ritmo de cortes dá força aos detalhes tortuosos da travessia, valorizando todo purgatório pelo qual passam os personagens e potencializando o suspense a níveis próximos ao do clássico de 53 (que também encontra em sua montagem um recurso vital para a eficiência da obra), embora a preocupação de Friedkin aqui seja muito mais com as ações imediatas, coisa que captura excepcionalmente bem, do que com a antecipação do que está por vir.

No fim das contas Comboio do Medo parecer ser uma daquelas pérolas que passam os anos despercebidas, colhendo um grupo fervoroso de admiradores no meio cinéfilo, mas sem nunca atingir um público amplo. Fica, então, a minha recomendação – que vale também para O Salário do Medo, embora esse precise muito menos – desse filmaço que felizmente hoje circula no mercado de home video brasileiro dentro da coleção “O Cinema da Nova Hollywood” da Versátil.


  NOTA (9.0/10):

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