sábado, 15 de outubro de 2016

Crítica: Manchester à Beira-Mar (2016)


GUILHERME W. MACHADO

É estranho que Manchester à Beira-Mar esteja cotado com tanta segurança para ir ao Oscar 2017 nas principais categorias. Não é nem que seja muito fora dos moldes, ou vanguardista em qualquer medida, mas me parece um filme muito seco para os padrões dramáticos da academia. Muito contido, inclusive em suas atuações. Enfim, não é um tópico no qual valha a pena se aprofundar, apenas um comentário que pode ser ignorado pelo leitor, então não gastarei mais do que esse primeiro parágrafo tentando especular o que a academia do Oscar pensa ou não. Vamos ao filme.

O que mais agrada nesse trabalho de Kenneth Lonergan é justamente essa distância que o diretor cria. Há uma recusa pela valorização do drama aqui que é louvável, pois, embora o enredo seja repleto de eventos trágicos, o diretor escapa habilmente do melodrama em todas situações, em oposição, por exemplo, ao filme de Derek Cianfrance, A Luz Entre Oceanos [2016], também exibido no Festival do Rio essa semana, que faz de tudo para buscar aqueles enfadonhos grandes momentos de drama e tragédia, com Alicia Vikander debulhando-se em lágrimas. Em Manchester à Beira-Mar a tragédia do enredo promove, inclusive, momentos de pura comédia, que nunca desestabilizam a serenidade e frieza do filme. Esse tom que a obra assume é delicado e pode tanto desagradar alguns espectadores quanto encantar outros.
Mais curioso é que o enredo do filme – nada anormal, aliás – não expressa exatamente o que é entregue. O que se espera na leitura da sinopse é a típica história de superação, de renovação pessoal, do “protagonista derrotado”, um antigo clichê de Hollywood que não se repete em Manchester à Beira-Mar. Temos, ao contrário, um filme que abraça a amargura de seu personagem principal, dosando cuidadosamente as informações passadas à plateia, e que não busca uma redenção, mas sim um belo (essa não é bem a palavra, mas enfim) estudo de personagens afetados pelo trauma que é a perda de entes queridos. A bem feita construção dos personagens, que nunca soam como “mais do mesmo”, é o grande destaque do filme. Méritos do roteiro nessa questão.

No elenco, destacam-se Casey Affleck e Michelle Williams, mas todo conjunto é sólido. O primeiro impressiona pela falta de excesso com que constrói os trejeitos e reações de seu personagem. O trabalho de Affleck vai revelando seu sentido no decorrer do filme, ganhando novas camadas conforme a história progride (ou, no caso, regride). Já Williams tem uma atuação mais direta, mantendo um nível de intensidade relativamente regular, mas não por isso desinteressante.

Numa breve passada por questões técnicas, vale apontar os tons frios da fotografia e da direção de arte, Manchester à Beira-Mar é um filme do inverno, da neve, dos tons gelados e isso não poderia ser diferente; os enquadramentos, entretanto, muitos com foco raso e com amplo destaque visual nos personagens (raramente isolados ou diminuídos no quadro), não fazem muito para reforçar a sensação de vazio do protagonista. A montagem é um ponto dúbio, pois embora contribua para bons momentos cômicos, e para uma boa construção do tom anteriormente referido, seu estilo seco chega a dar a sensação de corte prematuro em algumas cenas, o que pode incomodar. Enfim, há algumas picuinhas de acabamento que, embora sutis, não potencializam qualidades já presentes no filme, que é ótimo, mas não excelente.

Filme visto no Festival do Rio 2016*

  NOTA (8.0/10):

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