sábado, 3 de setembro de 2016

Crítica: Aquarius (2016)


GUILHERME W. MACHADO

Depois de uma série de exercícios formais (mais para rompimento com a forma, na verdade) que, por mais interessantes que fossem, sempre deram justamente essa impressão de um cinema mais preocupado em tencionar a narrativa do que realmente contar uma história, Kleber Mendonça Filho parece começar a encontrar alguma forma de equilíbrio com Aquarius. Não cabe a esse texto comparar esse novo trabalho com O Som ao Redor [2012], e minha colocação acima não é um veredito, apenas uma constatação de uma mudança bem específica, sutil. Como toda passagem, entretanto, perde-se algo na mesma medida em que se ganha.

Prometo tentar evitar reducionismos “Aquarius é sobre...”, pois constato que há uma preocupação do diretor em abordar diferentes temas. É difícil, todavia, não se ater ao aspecto político que envolve o filme, dentro e fora do mesmo. Se, no meu texto sobre Sniper Americano [2014], eu defendi uma separação de autor e obra, continuo a fazê-lo aqui, mesmo que essa separação venha a ser feita apenas na subjetividade de quem assiste. Claro que todos tem suas opiniões políticas sobre o momento brasileiro atual, mas de nada adianta avaliar qualquer peça artística através de noções infantis de rivalidade "nós contra eles" (já é ruim o suficiente que tratemos política dessa forma).

É evidente, por sua vez, a inclinação política do diretor Kleber Mendonça Filho – ele faz questão de expô-la sempre que possível , e seu filme, sim, a reflete numa metáfora muito bem elaborada. O que o separa, digamos, de um Que Horas Ela Volta? [2015] é o cuidado para não incorrer em maniqueísmos simplórios, não tão diretamente, pelo menos. Ora, Clara, a personagem de Sonia Braga (fantástica no papel), é uma mulher de classe média alta, de complexidade psicológica e emocional e plenamente respeitável, admirável até, mesmo com seus defeitos, que a tornam inclusive mais humana. Bem diferente dos patrões maquiavélicos e da empregada canonizada do filme de Anna Muylaert já mencionado. Isso não isenta, entretanto, alguns momentos puramente panfletários – que são, invariavelmente, os mais fracos do filme, comprometendo um pouco o resultado , como a forçosa cena em que a empregada mostra a foto do filho na reunião de família, ou o diálogo "lição de moral" na garagem.

Mas enfim, há outros lados da película que talvez mereçam até mais destaque do que todo esquema político (que vem ganhando todas atenções, positivas e negativas). Me agrada muito a forma como Kleber Mendonça Filho consegue impor um inquietante terror psicológico, uma característica já marcante de sua breve filmografia, podendo ser reconhecida também no curta Vinil Verde [2004], além do já bem conhecido O Som ao Redor. Há algo Kafkaniano na história de uma mulher de 65 anos que passa a ser coagida para vender seu apartamento para que seu antigo prédio, quase que totalmente desocupado, possa ser demolido para a construção de um mais novo e moderno. É como o homem que está detido para um julgamento, que pode resultar em sua morte, mas que sequer sabe de qual crime está sendo acusado, o protagonista de O Processo, do grande escritor tcheco.
Outro aspecto do filme, que volta a mostrar uma preocupação recorrente com temas já abordados em O Som ao Redor, é a presença do fator urbano na história. A cidade de Recife marca o filme de Mendonça Filho, força essa que pode ser evidenciada pela direção, mas também pelo ótimo trabalho sonoro. Por mais que essa preocupação com o urbano fosse mais forte no seu longa anterior, por ser mesmo um tema mais central naquele filme, enquanto nesse é mais um fator de ambientação, ela ainda revela-se em momentos como aquele plano geral que encerra a cena da festa na casa da empregada, no qual vemos os imponentes prédios da parte rica da cidade sobrepondo-se sobre o humilde sobrado. Imagem essa que é reforçada pelo momento anterior na qual Clara explica como a cidade é (fisicamente) dividida em dois, rico e pobre, sendo a linha que marca essa ruptura formada por um cano de esgoto que passa por debaixo da praia.

Enfim, Aquarius é um filme ambicioso na sua variedade temática, mas que consegue tecer comentários relevantes naquilo que propõe. Há ainda toda questão da passagem de tempo, da insensível troca do antigo pelo novo, que pode ser evidenciada em momentos tão pequenos quanto a cena do cemitério, na qual Clara vê a exumação de restos mortais de uma cova para abrir espaço para que essa seja ocupada por outro corpo. Kleber Mendonça Filho parece mesmo ser uma voz significativa no cinema brasileiro atual, seus filmes carregam um vigor e uma visão de mundo particular, algo que pouco se vê em nossos cineastas (mesmo nos melhores) de agora. Seu filme definitivamente não deve ser julgado por suas ações como indivíduo, seja com benevolência ou escárnio.

  NOTA (8.5/10):

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