quinta-feira, 10 de março de 2016

Crítica: Assalto ao Trem Pagador (1962)


GUILHERME W. MACHADO

Se existe uma temática comum facilmente localizável no cinema brasileiro é a da pobreza. Ou da luta de classes, como preferem alguns. Mas, pensando bem, por que não deveria ser? Não pode ser o cinema um reflexo da realidade? A miséria e o contraste entre rico e pobre não são marcas fortes da sociedade brasileira? De qualquer forma, a verdade é que poucos filmes conseguiram apropriar-se do assunto com tanta contundência e clareza quanto Assalto ao Trem Pagador [1962], e não por falta de tentativas.

O filme parte de um assalto real, mas já deixa claro desde os créditos que seu foco não é a reprodução do crime e que os personagens são fictícios. Tudo começa, então, com o próprio assalto ao trem pagador, primeira cena na qual o diretor Roberto Farias, num belo tributo ao cinema de gênero, já mostra a precisão de seus enquadramentos e o propósito econômico e revelador de sua câmera, características que se mantêm com louvor ao longo da obra. Daí em diante, o filme passa a focar nas consequências do crime – de forma mais relevante que 90% dos outros filmes de roubo que compartilham do mesmo discurso moralista – na vida da ampla quadrilha que o cometeu, intercalando ainda com as investigações da polícia e os palpites da mídia sobre o caso.

Tião Medonho (Eliezer Gomes), líder da quadrilha e homem mais temido da favela, é o herói brasileiro da vez. Por algum motivo todos heróis brasileiros são, realmente, anti-heróis. Tião é o líder, mas ele responde ao Grilo (Reginaldo Faria), o único membro não favelado do grupo – que não deixa, porém, de ser de classe social baixa – e o idealizador do golpe, através do pseudônimo de “o engenheiro", figura imaginária que o confere credibilidade e controle perante o grupo. O restante da gangue é composto por favelados, brancos ou negros, cachaceiros ou trabalhadores, valentões ou covardes; basicamente um extrato arquetípico completo do meio em que vivem: a favela do Rio de Janeiro nos anos 60, pré-trafico de drogas.

Uma das maiores qualidade de Assalto ao Trem Pagador é ter uma crítica social forte e bem construída sem a ingenuidade comum do cinema nacional que costuma enfiar goela a baixo o paradigma de que o pobre é a vítima inocente e o rico o marajá cruel (lembram de Que Horas Ela Volta?). Tião Medonho é um personagem fantasticamente construído dentro de uma bem-vinda ambiguidade entre bom/mal, moral/amoral. Ele é um homem de família atencioso e amoroso, fato, mas possui duas famílias (com mulheres e filhos) em paralelo sem que uma tenha conhecimento da outra. Ele é fiel aos seus companheiros, mas deixa seu irmão, pelo qual nutre desgosto devido sua fraqueza, passar todo tipo de aperto enquanto mantém sua parte do dinheiro do assalto. Ele é justo dentro da favela, ajuda famílias desesperadas e faz serviços para a comunidade, mas não hesita em impor seu reino de terror de “quem me contraria morre”. Essas constantes contradições do protagonista enriquecem o filme e validam ainda mais o seu retrato de injustiça social.


É assustador perceber como a realidade brasileira apresentada por Roberto Farias em 1962 faz-se atual até hoje, 2016. Um país sem auto-estima, no qual até mesmo algo ilegal como um roubo, se bem executado e planejado, "só pode ter sido feito por estrangeiros". Um país no qual o respeito vem pela aparência de prosperidade, muito bem exemplificado na ótima cena da loja de carros, na qual Grilo conhece Marta (Helena Ignez). Essa questão da aparência, da influência da imagem na construção social, por sinal, é muito forte no filme, chegando ao seu ápice na impactante cena em que Grilo martela ferozmente a diferença entre ele, “que é loiro e tem olhos azuis”, para Tião, “que é feio e com cara de favelado”, e como este último nunca vai poder sair da miséria, mesmo com dinheiro.

O roteiro de Assalto ao Trem Pagador faz um ótimo trabalho em não permitir que o discurso social tome conta da narrativa a ponto de torná-la panfletária. Não, o filme sustenta-se dentro do gênero de assalto e é envolvente do início ao fim. É importante ressaltar que, mesmo com toda aquela iconografia que fala especificamente ao povo brasileiro, o filme é muito eficiente em tratar questões globais, como ambição, lealdade e ganância, remetendo a outros grandes clássicos do gênero, como a obra-prima Rififi [1955] de Jules Dassin.
Para finalizar, então, Assalto ao Trem Pagador é um prato cheio para quem busca no cinema nacional relevância de conteúdo com bom entretenimento. Claro, tem toda aquela estética sessentista que não cabe àqueles que não curtem nada anterior a Cidade de Deus [2002] – filme que guarda lá suas semelhanças com este, diga-se de passagem –, mas que não deve ser incômoda aos cinéfilos mais assíduos.


  NOTA (8.5/10):

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