terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Crítica: Banho de Sangue (1971)


GUILHERME W. MACHADO

Banho de Sangue pulsa, como pulsa o sangue vermelho escarlate do filme (sangue quanto mais artificial mais divertido, não?), num ritmo frenético e intimidante da percussão que rege sua trilha sonora. Em toda brilhante carreira de Mario Bava, nunca houve um filme tão preocupado com a relação entre o ato de olhar e a própria morte. Os personagens, em sua maioria, encontram suas mortes neste clássico pelo simples ato de olhar ou de ter olhado em momentos inapropriados.

Radicalizando a cartilha escrita por Hitchcock em Janela Indiscreta [1954] e por Michael Powell em A Tortura do Medo [1960], Mario Bava acusa-nos – alguns anos antes de Argento dominar a técnica como ninguém – pelas mortes de seus personagens. Não somos mais apenas voyeurs curiosos, agora temos participação efetiva, somos a câmera que tira a vida dos personagens com requintes de crueldade.
A relação de Banho de Sangue com o ato de olhar expressa-se, também,  frequentemente na trama do filme. Pode ser visto nos closes do olho do assassino que espreita os adolescentes; até mesmo no olhar melancólico da condessa para a cabana de seu filho abandonado, como quem antecipa a própria morte. Esse mesmo olhar, misteriosamente lúcido, pode ser visto nos últimos momentos da cartomante, segundos antes de ter sua cabeça decepada.

Mario Bava, como o grande mestre que era, reconhece o potencial do seu material e não o põe a perder tentando esconder a identidade do assassino. São raros os filmes que agregam valor com esse tipo de mistério – Argento, mesmo, é um dos poucos que sabia lidar com isso, brincando com o grau de percepção do público sobre o que a imagem revela. Já na primeira cena Bava mostra que não está disposto a entrar nesse joguinho de adivinhações, revelando imediatamente o assassino da condessa e já o matando em sequência. Assim, logo no início, ele nos passa uma clara mensagem sobre como será o desenrolar da trama. A sacada dos múltiplos assassinos, prontamente introduzida e em nenhum momento disfarçada, é uma das coisas que eleva Banho de Sangue a outro patamar; simplesmente genial.

Com toda limitação financeira da produção, Bava consegue criar um filme de ritmo alucinante. O nível de domínio técnico que tem sobre sua função pode ser sentido em cada sequência, começando já pelo primeiríssimo plano, com a câmera subjetiva da mosca em seus momentos finais. Nesse primeiro momento, através de uma linguagem puramente audiovisual, ele traça um paralelo entre humanos e insetos, e sua relação frente à morte, reforçado por elementos da trama no decorrer do filme. Sua perícia é muito bem acompanhada por uma frenética trilha sonora muito bem manejada em conjunto com a velocidade impressa pela ótima montagem.
Aplaudido muito pelo fato de ser o filme que criou o slasher, Banho de Sangue é uma obra-prima do terror que se sustenta mesmo hoje, mais de 40 anos depois, e que merece reconhecimento pelas suas próprias qualidades, tão notáveis quanto seu valor histórico.


  NOTA (8.5/10):

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