terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Crítica: Meu Tio (Mon Oncle, 1958)



GUILHERME W. MACHADO

Na recente arte que é o cinema – quando a comparamos com as outras, que têm séculos, até milênios, de idade – a modernidade já foi tratada e retratada em muitas ocasiões. Talvez o caso mais célebre seja o clássico Tempos Modernos [1936], de Chaplin, e não sem razão de ser, mas certamente um dos melhores filmes que abordam o tema é Meu Tio [1958], o filme mais famoso do prestigiado Jacques Tati, provavelmente por tê-lo concedido o seu Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, em 1959.

Jacques Tati monta seu filme em cima de um gritante contraste entre duas realidades francesas de seu tempo: uma é a França burguesa e moderna, cada vez mais preguiçosa (não à toa que o casal central é mais gordinho) e vazia; a outra é a França periférica, porém muito mais viva e calorosa. Há um claro maniqueísmo aqui, um tipo de parcialidade que poderia prejudicar severamente o filme se não tivesse sido tão bem manejada – com críticas suavemente aplicadas em conjunto com uma boa dose de alívio cômico, nunca pesando a mão – por Tati.

Até aí tudo normal, nada que não tenha sido feito por centenas de filmes medíocres. É no grau de detalhamento da narrativa que se encontra o diferencial. Tati aborda fortemente a automatização, o excesso de praticidade trazida pela modernidade às altas classes que podem pagá-la. Para alcançar seu objetivo ele faz uso de uma linguagem primordialmente visual, numa espécie de resgate das narrativas do cinema mudo. Não há didatismo por parte do roteiro, os poucos diálogos – geralmente de propósito cômico – não servem de bengala para tornar a obra compreensível ou mais clara para o espectador. E ela é bastante clara, mesmo assim, o que prova o domínio do diretor/roteirista sobre sua arte.

É nessa situação que a parte técnica, com destaque para a direção de arte, mostra todo seu potencial. Os cenários são ricamente elaborados de forma a ter um papel decisivo na narração da história. Além do predominante uso de branco e tons de cinza tanto na casa da família central quanto no local de trabalho do pai, há toda construção estética fortemente geometrizada, facilmente perceptível no jardim da casa. Há ainda o apoio do figurino, que insiste em vestir o casal em branco ou cinza. Tudo isso faz parte de uma linguagem visual que aponta constantemente para essa realidade vazia, prática, e sobrecontrolada da camada social em questão.
Meu Tio é cinema na sua forma mais primordial de linguagem, construindo seu envolvente universo crítico através de contundentes recursos visuais. Ele se insere num contexto em que a comédia – mesmo a comercial, que não é caso aqui – também era um gênero cujos cineastas preocupavam-se com a estética, com a tão falada mise-en-scène. A prova são filmes como O Terror das Mulheres [1961], Um Convidado bem Trapalhão [1968] e a obra prima Quanto mais Quente Melhor [1959].


NOTA (8.5/10):

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