segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Crítica: Fedora (1978)



GUILHERME W. MACHADO

A imagem e seu infinito poder contemplativo. A consolidação de uma imagem, de um símbolo, na eternidade, através da morte, ou da arte. A juventude eterna, beleza eterna. Fedora é uma mulher que vive da imagem, e para ela.

Billy Wilder, um dos diretores mais geniais que já vi, dá, com Fedora, um de seus últimos suspiros como o grande artista que foi. A reciclagem de um argumento presente no seu clássico Crepúsculo dos Deuses [1950], ainda que atrelado indissociavelmente da indústria cinematográfica, deu a Wilder o material para a última – dentre tantas – de suas obras primas. Fedora é um filme sobre a passagem do tempo, sobre a recusa do envelhecimento numa busca pela beleza eterna, o Dorian Gray dos anos 70.

A potência da história de Wilder reside paradoxalmente na simplicidade (objetividade) de sua reflexão e na profundidade com a qual ela é trabalhada, através dos adornos que lhe são conferidos. Junto de seu co-roteirista de longa data I.A.L Diamond, Wilder cria uma história tão poderosa e profunda da qual consegue extrair qualquer coisa que precise para sua narrativa: drama, suspense, humor negro, metalinguagem, etc. Fedora adentra intensamente, como nenhum outro filme, na vaidade humana e na busca pelo que Canevacci chamaria de “juventude eterna” – ainda que na obra do teórico italiano ele se referisse a um estado de espírito, enquanto aqui a juventude é física e se demonstra através da imagem.

Toda concepção narrativa do filme é primorosa, mantendo o refinamento peculiar de Wilder e construindo uma irresistível atmosfera de mistério. Os fatos são revelados aos poucos enquanto somos sugados pela intrigante história de Fedora. O mistério, perfeitamente estabelecido, ocupa a cabeça do curioso espectador por mais da metade do filme quando, através de uma cartada brilhante e ousada de Wilder, a trama se desfaz, esfarela-se. Começa, então, uma segunda parte do filme, na qual pouco a pouco a nebulosidade que permeava toda primeira etapa vai se desfazendo e os conceitos vão se invertendo, conferindo ao espectador uma concepção totalmente nova sobre os eventos decorridos. Billy Wilder e I.A.L Diamond não deixaram nada ao acaso, nenhuma ponta solta, costurando tudo num de seus melhores roteiros (e olha que o currículo de ambos é vasto). Incisivo no argumento e envolvente na narrativa.
Wilder carrega consigo todo refinamento de uma era de cineastas já extinta em meados dos anos 70, quando o filme foi feito, fazendo de Fedora uma peça de museu, um filme glamoroso fora de seu tempo. De qualquer forma, o filme é tão contundente e bem construído que tem uma validade atemporal; ele ganha, inclusive, ainda mais sentido – perdendo até um pouco daquele feeling de “história inverossímil” que tinha no seu lançamento – nos tempos atuais, nos quais a busca pelo rejuvenescimento chegou ao seu ápice, com as milhares de plásticas e técnicas disponíveis. O culto pelo belo e pelo novo nunca esteve tão forte quanto hoje, assim como o está Fedora.

O estilo dos quadros e a “economia” de câmera de Wilder – que nunca foi adepto de muito malabarismo – criam uma atmosfera difícil de descrever. A personagem de Fedora, principalmente na primeira metade do filme, é filmada como se fosse um fantasma, uma aparição (mas não no sentido dos filmes de terror). Como se ela não andasse, mas pairasse sem que seus pés tocassem o chão, assemelhando-se com o que Hitchcock fez em Rebecca [1940] com a personagem de Sra. Danvers, com a diferença de que Hitchcock o fez para conseguir um efeito sinistro sobre sua personagem – objetivo no qual obteve imenso sucesso, diga-se de passagem –, enquanto Wilder buscou conferir graciosidade à sua. É quase como se Fedora, sempre que aparecesse em cena, estivesse envolta numa névoa tênue. Como eu disse, é difícil associar palavras a sensações e o cinema é uma arte de sensações.

À parte de toda sua genialidade, Fedora é ainda uma grande ironia de Wilder sobre os rumos tomados pela indústria cinematográfica (Hollywood, no caso) naquele momento. Uma denúncia às futilidades e hipocrisias. Além disso, entretanto, Fedora é um rico jogo de metalinguagem, no qual Wilder não brinca apenas com atores que se autointerpretam (Michael York e Henry Fonda, por exemplo), mas inclusive com obras clássicas da literatura, como Anna Karenina, de Liev Tolstói, que não consta no filme apenas como uma mera referência intelectual.
Billy Wilder, como o imenso cineasta que foi, soube renovar temas recorrentes da sua carreira e deles tirar algo novo e igualmente potente. Fedora não é apenas um filme, mas a imortalização de um ícone, um símbolo. Tanto da personagem título quanto do próprio Wilder.


  NOTA (9.5/10):

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