sexta-feira, 3 de abril de 2015

Kill Bill (2003/2004)






GUILHERME W. MACHADO

Kill Bill, se não for o melhor filme de Quentin Tarantino – para isso teria que concorrer com o inigualável Pulp Fiction [1994] –, é o mais “tarantinesco” de todos. Declaração forte, evidentemente, uma vez que o currículo de Tarantino é tão fantástico que não permite que determinismos se apliquem sobre o mesmo; essa é, portanto, apenas a minha visão e tentarei embasá-la com esse texto. Aviso que não pretendo discorrer aqui especificamente sobre a trama do filme, pois pressuponho que o leitor já o tenha assistido e isso apenas tornaria o texto ainda maior do que já é (o filme, afinal, é imenso); citarei, então, apenas algumas passagens conforme convêm para a elaboração do raciocínio.

Tarantino consegue, em Kill Bill, a ambição máxima de todo (quase todo, para não generalizar) cineasta, ou melhor, de todo contador de histórias: criar um universo à parte, com suas próprias regras e sua lógica exclusiva. No mundo de Kill Bill é totalmente plausível que se ande de avião com uma espada samurai ao seu lado (não apenas a Noiva, mas outros passageiros também levam uma); que uma assassina altamente treinada acorde de um coma de 4 anos em condições de matar dois homens; que uma pessoa tenha membros decepados mas mantenha não apenas a vida (apesar da perda massiva de sangue), como também a consciência (não desmaie); que uma assassina, com as habilidades certas, seja capaz, sozinha, de matar mais de 50 pessoas num combate. Em resumo, as leis do nosso mundo, assim como sua física, claramente não se aplicam à Kill Bill, e não pelo fato dele ser mal feito ou “inverossímil”, mas sim por ele ser um universo fechado, conciso, dentro do qual tudo isso faz total sentido sem que haja qualquer necessidade de explicações. Isso, aliás, demonstra o talento descomunal de Tarantino, que compõe seu mundo de forma tão impecável que não é necessário que nos explique nada em momento algum para que entendamos seu funcionamento.

"O-Ren Ishii: You didn't think it was gonna be that easy, did you?
 The Bride: You know, for a second there, yeah, I kinda did.
 O-Ren Ishii: Silly rabbit.
 The Bride: Trix are...
 O-Ren Ishii: ...for kids."

A mistura de referências e gêneros, marca que acompanha toda carreira de Tarantino, ocorre aqui de forma tão orgânica e inventiva, numa combinação extremamente improvável (western + samurai?) que resulta em algo completamente inusitado. Kill Bill é de um frescor criativo inacreditável, sendo essa perfeita sintonia na mistura das diversas referências (que envolvem filmes de artes marciais chineses, filmes samurais japoneses, westerns americanos, filmes de vingança, etc) o que faz com que eu classifique Kill Bill como o filme no qual a marca de Tarantino está mais presente dentro de sua filmografia.
O inesgotável fluxo criativo de Tarantino não termina no roteiro, que é brilhante, estendendo-se ainda à direção, que representa o auge estético do diretor. Os ângulos de câmera são despojados – acompanhando a ação por debaixo de chãos de vidro, por cima dos sets, entre fendas de portas, por dentro de porta-malas – e seus movimentos, por mais elaborados que sejam, tem uma fluidez impressionante, conciliando a dinamicidade exigida pelo filme com uma qualidade estética digna do adjetivo gênio. Aqui entra também o grande mérito do diretor de fotografia Robert Richardson, que mostrou toda sua versatilidade sendo extremamente eficiente em todos tipos de cenário e situações, com destaque para a lindíssima cena do combate entre a Noiva (Uma Thurman) e O-Ren Ishii (Lucy Liu), sobre a qual falarei mais tarde.

"The Bride: [voiceover] As I lay in the back of Buck's truck, trying to will my limbs out of entropy, I could see the faces of the cunts that did this to me and the dicks responsible. Members all of the Deadly Viper Assassination Squad. When fortune smiles on something as violent and ugly as revenge, it seems proof like no other, that not only does God exist, you're doing His will."

A estrutura narrativa de Kill Bill, assim como foi com Pulp Fiction, é genial, pulando constantemente no tempo num exercício de manipulação de Tarantino sobre seu espectador, brincando com suas visões sobre a história. Claro que para o sucesso dessa narrativa foi imprescindível uma grande montagem e Sally Menke arregaçou as mangas. Sua edição foi inteligente, valorizando os planos de Tarantino e sua atmosfera sendo ainda capaz de acelerar ao ritmo adequado nas cenas de ação, que contam com uma grande quantidade de planos em poucos segundos. A montagem de Menke conseguiu distribuir a atenção do público para todos pontos fortes do filme, não sonegando nada ao espectador, desde as atuações (Thurman recebeu todo seu merecido espaço) até às ótimas coreografias das cenas de luta, passando ainda por toda parte dramática e romântica da obra com maestria.

Tendo coberto boa parte da parte técnica, foco agora em falar um pouco sobre alguns de meus elementos favoritos do filme no que tange a trama e/ou os personagens. É simplesmente fenomenal a relação estabelecida entre Bill e a Noiva, única em toda história do cinema. Ninguém esperava que Tarantino, após ter lançado a primeira metade do seu épico (que é, na verdade, um único filme dividido em duas partes), tiraria, na segunda parte, daquela sanguinolenta história de vingança, um romance complexo e intenso. Os diálogos entre esses dois personagens são de uma profundidade e intensidade colossais (é tão raro poder utilizar essa palavra numa frase), cobertos de duplo sentido e subtexto. Sua relação é tão complexa, mas ao mesmo tempo tão sincera, que é impossível para o espectador não se envolver.

"The Bride: You want to come to the wedding?
 Bill: Only if I can sit on the bride's side.
 The Bride: You'll find it a bit lonely on my side.
 Bill: Your side always was a bit lonely. But I wouldn't sit anywhere else."

É essa maravilhosa construção que torna o final do filme impecável, ainda que esse seja alvo de críticas por parte de seus detratores. Qualquer confronto de espadas entre Bill e a Noiva, não importa o quão bem coreografado, teria sido decepcionante perante as expectativas criadas, ao contrário do genial diálogo que culmina numa emocionante solução, resgatando um elemento aparentemente gratuito da obra e o reciclando-o perfeitamente. Com essa elegante solução para um difícil problema, Tarantino não apenas cria um final inesquecível como também amarra ainda mais seu roteiro, não deixando nada ao acaso.
Outro personagem interessante no filme é o irmão de Bill, Bud (Michael Madsen). Um homem que sequer tenta esconder o fato de ser perseguido pelo seu passado, de tal forma que ele abandonou toda sua vida de assassino profissional bem sucedido para uma vida de subemprego e humilhação na cidade, dentre tantas, de El Paso (onde ele participou da chacina na cerimônia de casamento da Noiva). O passado [culpa] de Bud dita o seu presente, assim como acontece com a própria Noiva.

"Bill: I know we haven't spoken in some time. And the last time we spoke wasn't     the most pleasant. But you've to got to get over being mad at me and start  becoming afraid of [beep] because she is coming, and she is coming to kill you. And unless you accept my assistance, I have no doubt she will succeed.
Budd: I don't dodge guilt, and I don't Jew out of paying my comeuppance.
Bill: Can't we just... forget the past?
Budd: That woman, deserves her revenge and... we deserve to die. But then again, so does she. So, I guess we'll just see. Won't we?"

Ainda que absolutamente todos personagens da trama sejam muito bem construídos e únicos, nenhum se compara, obviamente, à Noiva. Um dos principais motivos de seu sucesso se dá ao fato da atriz Uma Thurman ter colaborado com Tarantino na criação da personagem, o que fez com que ficasse muito a vontade num papel que muito exigiu dela. Sem exageros, Thurman fez uma atuação exemplar, muito mais difícil do que aparenta a primeira vista, tendo sido exigida não apenas na coreografia ou nas cenas em que tem diálogos completos em japonês, mas também dramaticamente, tendo que interpretar um personagem complexo emocionalmente. A atriz passa todas emoções de Beatrix Kiddo perfeitamente, não gerando qualquer ambiguidade sobre a mesma (perigo no qual era fácil de incorrer).
Não pretendo me alongar muito mais e, ainda que tenha muitas outras coisas para comentar, vou me limitar apenas a alguns fatores, como um dos meus capítulos favoritos do filme: O Confronto na Casa das Folhas Azuis. As cenas de embate entre a Noiva e os “Crazy 88”, além da luta da mesma contra Gogo Yubari, estão entre as mais bem coreografadas e filmadas que já vi, num altíssimo grau de violência e empolgação. É nesse momento que Tarantino tira todas cartas de sua manga, fazendo uso impecável de uma alta gama de recursos cinematográficos, com direito à close-ups, preto e branco, slow-motion e uma montagem perfeitamente ritmada pela empolgante trilha sonora. Depois desse verdadeiro show de direção, Tarantino evolui a um patamar ainda mais alto com o confronto entre a Noiva e O-Ren, conciliando uma fotografia espetacular, com um belíssimo cenário (o filme todo conta com um excelente design de produção, diga-se de passagem), e uma das melhores escolhas musicais do cinema, Don’t Let me Be Misunderstood [Santa Esmeralda]. Cena que é um verdadeiro delírio aos sentidos.

Há vários outros momentos dignos de destaque no filme, como todo capítulo do treinamento de Pai Mei, a ótima luta entre Elle e a Noiva (que tem um delicioso desfecho), a cena do ensaio de casamento e seus diálogos incríveis... Mas o filme é longo (mais de 4 horas) e eu tenho que controlar minha empolgação. Resta dizer que Quentin Tarantino é o diretor da nova geração (pós anos 90) que melhor domina a linguagem cinematográfica, tendo perfeito controle narrativo e criativo sobre a mesma e empregando seus diferentes recursos (planos-sequência, flashbacks, fotografia em preto e branco, zooms, etc) como ninguém no cinema atual, nunca caindo no vazio do simples exibicionismo. Kill Bill é uma das obras primas mais singulares da história do cinema e um dos meus filmes preferidos.


  NOTA (10/10):


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