quarta-feira, 4 de março de 2015

Crítica: Terror nas Trevas (1981)





GUILHERME W. MACHADO

O cinema, enquanto arte, sempre pôde ser visto como uma ferramenta de fuga da realidade, uma desconstrução da mesma. Terror das Trevas, considerado por muitos a obra prima do mestre Lucio Fulci, é um atestado de insanidade criativa, de puro terror que desafia qualquer lógica ou explicação. Por esse motivo, é muito difícil assisti-lo pela primeira vez, uma vez que, como espectadores, somos treinados à buscar cuidadosamente explicações para todos eventos e trazer uma dose, mínima que seja, de racionalidade para o filme que assistimos. Nessa obra, isso é impossível.

A história é tão crua que é necessário esforço para descrevê-la em mais de três linhas. Uma jovem, desprovida de qualquer bem (material ou mesmo espiritual) na sua vida, herda de um tio distante um antigo hotel. Na tentativa de reformá-lo para que ele pudesse ser reaberto, ela e as pessoas que a ajudam se deparam com um dos maiores pesadelos retratados no cinema: o hotel foi construído em cima de uma das 7 portas do inferno. A semi-inexistente trama do filme é, sem dúvida, completamente gore – não atoa seu diretor é conhecido como “Pai do Gore” – e acaba pesando contra o filme, sendo a maior arma de seus detratores.

Sem dúvida há fatores incômodos no roteiro de Terror nas Trevas que não podem ser ignorados apenas pela premissa de “liberdade criativa”. A má construção geral da história e, principalmente, dos personagens retira do filme qualquer potencial de identificação, não dando ao espectador motivos para torcer pelos mesmos (nem mesmo para suas respectivas mortes), fator importante num filme do gênero. Os furos, que não são poucos, são, até certa medida, aceitáveis num filme de terror; o erro ocorre, todavia, quando Fulci desafia incisivamente a paciência e o bom senso do espectador quando faz, por exemplo, com que seu protagonista erre [irritantemente] uma quantidade inaceitável de tiros, seja por má mira ou por irracionalidade, o motivo é indiferente. Mesmo num filme com um universo totalmente a parte do nosso, é necessário que haja coerência dentro das regras do mesmo.

Enquanto o roteiro se caracteriza como um verdadeiro rombo de qualidade no filme, a direção de Fulci é primorosa, e consegue, sem precisar se apoiar em mais nada (atuações, parte técnica, etc), sustentar a obra e propor uma bela experiência. Seus enquadramentos precisos, magnificamente bem construídos, e sua câmera econômica – em relação aos seus diretores semelhantes, como os mestres Dario Argento e Mario Bava – criam, com uma facilidade invejável, uma atmosfera única. A sensação de pesadelo é constante ao longo do filme, desde a ótima primeira cena quando vemos, numa perfeitamente utilizada fotografia de tom sépia (simulando um filme antigo), um grupo de cidadãos revoltados chegando de barco no hotel com instrumentos e motivação que lembram as inquisições católicas da idade média. Não há espaço para que o espectador descanse.


Terror nas Trevas, como o gore que é, tem como bengala o excesso de violência gráfica. Enquanto por um lado essa violência gera momentos memoráveis quando aliada aos criativos quadros de Fulci, por outro ela pode ultrapassar a barreira do medo e adentrar o perigoso território da repulsa, como em alguns momentos quando a montagem falha em dosá-la. A famosa cena das aranhas é um exemplo do excesso cometido, não pela força das imagens em si, mas pelo tempo desproporcional gasto para mostrá-las, cansando o espectador. Nesse ponto, Fulci diverge de Argento – quando se fala nessa brilhante geração de cineastas italianos de terror, é inevitável que haja muita comparação entre os mesmos – , pois embora ambos usem a violência visual em níveis semelhantes, o segundo nos mostra rápidas frações da mesma, o suficiente para fazer com que o espectador tema cada morte, enquanto Fulci valoriza a sua em demasia.


Terror nas Trevas é um terror no seu estado mais visceral, repleto de irregularidades, desde seu argumento até sua concepção, mas que consegue, ainda assim, se tornar uma experiência cinematográfica marcante. A atmosferização de Fulci, com sua cidadezinha enevoada e um conjunto de elementos bizarros, eleva a obra, que encontra seu auge no único grande acerto do roteiro: seu final.



  NOTA (8.0/10):


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