segunda-feira, 23 de março de 2015

Manhattan (1979)







GUILHERME W. MACHADO
"Chapter One. He was as tough and romantic as the city he loved. Behind his black-rimmed glasses was the coiled sexual power of a jungle cat. Oh, I love this. New York was his town, and it always would be." (ALLEN, Woody; Manhattan, 1979)
Não vou mentir nem usar meias palavras: é um verdadeiro desafio dissertar sobre um filme como Manhattan. Essa é uma obra tão rica em referências e reflexões sobre os mais diversos temas, que combinam-se a uma grande qualidade plástica e técnica, permeada ainda por um humor inteligente e afiado, que torna o meu trabalho de criticá-la uma tarefa tão difícil – sendo quase impossível abordar todo seu conteúdo num texto pequeno ou médio – quanto gratificante.

Comecemos, então, pelo começo. O filme abre com uma sucessão de belas imagens da ilha de Manhattan, fotografadas de forma nada menos que brilhante pelo grande Gordon Willis, permeadas tanto pelas melodias de Gershwin quanto pelo monólogo inicial de Isaac Davis (Woody Allen). Já nesse momento Allen vai além de simplesmente fazer um tão dito “tributo à sua amada cidade” (não sei por que insistem em classificar a obra como tal quando isso é apenas mais um elemento na mesma) e nos presenteia com um monólogo metalinguístico sutil, no qual ele (o escritor) pensa em maneiras diferentes de iniciar seu livro. É nesse belo jogo com a linguagem e suas palavras que começa Manhattan.
E é curioso pensar no filme em termos de sua relação com a linguagem, uma vez que Manhattan é, de certa forma, uma mistura de referências e diferentes linguagens cinematográficas que influenciaram Allen ao longo de sua carreira, mas que convergem simultaneamente nesse filme. A influência do cinema europeu soma-se aqui aos hábitos do cinema nova-iorquino - algo parecido com o que ocorreria em Touro Indomável, de Scorsese, no ano seguinte -, resultando numa das obras mais singulares dos anos 70. Essa mistura de referências, tão exposta ao longo do filme com diversas citações à artistas como Gershwin, Federico Fellini, Groucho Marx, Mozart e, evidentemente, Ingmar Bergman, faz de Manhattan uma obra rica em conteúdo sem nunca ser superficial ou leviano em relação ao mesmo. Há um enorme respeito de Allen ao apontar suas influências.

O filme inteiro transborda estilo e refinamento, tanto estético quanto temático. É estranho que um diretor que se autoclassifique como preguiçoso, como faz Woody Allen, tenha construído uma obra tão precisa, com um ritmo que parece orquestrado e com enquadramentos tão elegantes e elaborados. A direção sensível, que criou momentos mágicos, como a clássica cena do amanhecer à beira da ponte, casou misticamente com a montagem que ritmou o filme como uma de suas melodias clássicas. Fica obvia a humildade desproporcional de Allen, que sempre faz de tudo para não se valorizar como o grande artista que é.
A química do diretor com Diane Keaton é tão simples e envolvente, de uma forma que o mesmo nunca mais repetiria com suas futuras musas (Mia Farrow, Diane Wiest, Scarlett Johansson?). O interessante, aqui, é observar a dualidade que Allen impôs à personagem feminina. Enquanto ela representa um tipo de pessoa que é repulsiva a ele, alguém pedante intelectualmente – pseudo-intelectuais, como ele mesmo gosta de chamar –, ela também possui um charme e uma personalidade que lhe são magnéticos. Essa complexa personagem, uma mulher insegura que se esforça muito para convencer a si mesma de que é, ou deve ser, algo que não é, pode não ser o centro da história, mas certamente é ela quem a movimenta. Entendendo o personagem de Diane Keaton, o final do filme não poderia ser diferente. Mais uma vez o realismo de Allen triunfa sobre o romance, ainda que aqui ele me pareça mais otimista do que em outras de suas obras marcantes, como A Rosa Púrpura do Cairo [Woody Allen, 1985], por exemplo.

O texto já se alonga e eu nem comecei a falar do roteiro, talvez a maior qualidade de Manhattan. Poucos filmes ao longo da vasta carreira de Allen unificaram tão bem [quase] todos os seus dogmas. Em Manhattan, as reflexões do diretor acerca das relações afetivas, o tributo à sua amada cidade, o romance, seu realismo [pessimista?], as piadas inteligentes de timing inigualável, as referências artísticas, muitas temáticas marcantes da carreira do diretor coexistem magnificamente nesse filme, com uma organicidade que confere a tudo isso uma simplicidade contagiante. Seu talento ímpar na escrita de diálogos encontra nesse filme um dos ápices de sua carreira, as falas em Manhattan são afiadas, inteligentes, dinâmicas e sempre naturais.

Manhattan poderia ser comparado com uma sinfonia clássica: precisa, orquestrada, inevitavelmente graciosa. Talvez o melhor trabalho de direção de Allen que tirou o máximo de sua tão amada cidade e construiu uma das mais belas obras sobre relacionamentos nas grandes cidades. Um filme monumental.


  NOTA (10/10):


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