sábado, 28 de março de 2015

A Dama de Shanghai (1947)




GUILHERME W. MACHADO

 “When I start out to make a fool of myself... there´s very little can stop me.”
Pode não ter toda a inovação de Cidadão Kane [1940] ou a qualidade técnica embasbacante de A Marca da Maldade [1958], mas fato é que A Dama de Shanghai consegue figurar entre os grandes filmes de Welles, com sua mágica combinação de entretenimento com alta qualidade cinematográfica. Como é de costume do gênero noir, o filme abusa de uma trama cheia de reviravoltas e traições, propositalmente complicada e até confusa. Welles fez justiça, então, ao lado mais tradicional gênero (esse é o seu noir mais fiel), imortalizando ainda, junto de Gilda [1946], sua então esposa Rita Hayworth como uma das mais icônicas femmes fatales do cinema.

A trama começa despretensiosa para evoluir com o passar dos atos. Esse seria um exemplo de sinopse do filme: Após salvar uma bela e desconhecida mulher (Rita Hayworth) num parque, Michael O’Hara (Orson Welles) é convidado por ela para trabalhar de marinheiro num cruzeiro organizado pela mulher e seu marido, um rico, mas aleijado, advogado (Everett Sloane). Aceitando o convite O’Hara não podia imaginar que estaria se envolvendo em uma trama repleta de temas como traição, adultério, assassinato e paixão.

As constantes reviravoltas, por mais novelescas e até mesmo previsíveis em certos momentos, não deixam o filme ficar lento ou arrastado. Welles abusa desse elemento tipicamente noir que são as grandes viradas na trama para tornar sua narrativa mais envolvente e divertida, o que nunca faz mal. Outra característica que marca os grandes noir é a qualidade dos diálogos (que investiam pesadamente no duplo sentido numa época em que o cinema era censurado), e Welles sempre mostrou-se um grande roteirista - apesar de raramente ser elogiado como tal. As relações entre os personagens são tão intensas quanto ambíguas, alimentadas pelos dinâmicos diálogos - ponto fortíssimo do filme - e alto nível de atuação de Hayworth e Sloane, principalmente.
“Do you know, once off the hump of Brazil, I saw the ocean so darkened with blood it was black, and the sun fadin' away over the lip of the sky. We put in at Fortaleza. A few of us had lines out for a bit of idle fishin'. It was me had the first strike. A shark it was, and then there was another, and another shark again, till all about the sea was made of sharks, and more sharks still, and the water tall. My shark had torn himself from the hook, and the scent, or maybe the stain it was, and him bleedin' his life away, drove the rest of 'em mad. Then the beasts took to eatin' each other; in their frenzy, they ate at themselves. You could feel the lust and murder like a wind stingin' your eyes. And you could smell the death reeking up out of the sea. I never saw anything worse until this little picnic tonight. And you know, there wasn't one of them sharks in the whole crazy pack that survived.”

A direção de Welles, como o habitual, é monstruosa. Ainda que numa escala bem menos monumental do que A Marca da Maldade - possivelmente pelo orçamento ser ainda mais apertado -, o diretor retificou uma vez mais seu posto dentre os grandes gênios do cinema. Welles chegava a dar a impressão de ser um cineasta quase instintivo (a primeira vista, apenas), filmando sempre de maneira bastante incomum para o seu tempo, mas seu talento estético e a vigorosidade inquieta de sua câmera são inquestionáveis, assim como sua lucidez nos enquadramentos, sempre potencializando visualmente a narrativa, como toda boa direção deve fazer. Era uma combinação perfeita de frescor cinematográfico com consciência narrativa, atributos que dificilmente encontram-se num mesmo diretor - geralmente esses tendem ou para a inovação (frescor / vanguarda) ou para o classicismo (que privilegia a história bem contada acima de quaisquer exibicionismos), duas características pouco compatíveis.


Rita Hayworth mais uma vez dá um show à parte no filme, esbanjando elegância e sensualidade. Seu desempenho é o que traz mais intriga em A Dama de Shanghai, dificultando que o espectador capte suas intenções. Até mesmo no final resta a dúvida sobre o que ela realmente buscava em O’Hara. Algo parecido com que Wilder fez no seu clássico Pacto de Sangue, no qual também acabamos o filme sem ter certeza do que motivava a dupla de personagens principais. Ambiguidades caem muito bem no cinema noir. Sua “transformação” (a atriz aparece loira e de cabelo curto no filme) causou alvoroço na época e ainda encontra protestantes até hoje, mas a verdade é que não é possível perder tanto encanto.

Devo, em sã consciência, reservar um espaço exclusivo para a última cena. O filme inteiro mantém um nível alto e constante de qualidade, sem muitas variações neste aspecto. É no final, entretanto, que Orson Welles apresenta sua maior arma e o elemento que faz o filme se tornar eterno: a cena no parque de diversões, mais especificamente na casa dos espelhos. Amplamente plagiada e homenageada – inclusive por Woody Allen num filme que gosto muito: Um Misterioso Assassinato em Manhattan – esse cativante jogo cênico é um momento único na carreira do diretor e compete fortemente com a abertura de A Marca da Maldade e o final de Cidadão Kane pelo momento mais marcante de sua carreira.

“Of course, killing you is killing myself. It´s the same thing. But you know, l´m pretty tired of both of us.”

A Dama de Shanghai é um grande filme na filmografia de Welles, que infelizmente acabou ficando escondido atrás de outras de suas grandes obras. Proporciona toda a diversão que um filme noir é capaz através da invejável habilidade de Welles como contador de histórias, além de momentos de alta inspiração, com uma cena que considero entre as melhores do cinema.


  NOTA (8.5/10):


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