quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Whiplash: Em Busca da Perfeição (2014)


MATHEUS R.B. HENTSCHKE

Em depoimento à Comissão da Verdade, que analisa os abusos ocorridos na Ditadura Militar Brasileira, o coronel Paulo Malhães, que matou e torturou diversas pessoas à época, falou acerca da prática de tais torturas: "A tortura é um meio. Se o senhor, por exemplo, quer saber a verdade, terá que me apertar", levá-lo ao máximo. Nesse sentido, Whiplash: Em Busca da Perfeição apresenta uma relação que se assemelha muito a de um torturador com a sua vítima, ao acompanhar a trajetória de Andrew (Miles Teller), um estudante de música e baterista de jazz, que tem de passar por situações psicologicamente e fisicamente degradantes, a fim de permanecer no grupo comandado pelo respeitado e exigente professor Fletcher (J.K. Simmons). 

Ainda que com uma trama simples, de mais uma relação entre mestre e discípulo, Whiplash acaba por se desenvolver em um enredo sólido, em que diversas subtramas, como o relacionamento amoroso de Andrew com Nicole (Melissa Benoist), sua relação com seu pai (Paul Raiser) e com sua família não são enfadonhamente exploradas, servindo eficientemente ao seu propósito e o suficiente para se compreender o afastamento pelo qual o protagonista começa a ter dessas pessoas. Sua dedicação exagerada e foco compulsivo são amplamente ilustrados pela direção, que consegue construir uma história cativante, ainda que com alguns poucos excessos, como o das inúmeras vezes em que Andrew jorra sangue pelas mãos, fato que se torna repetitivo e, por vezes, redundante.


Convergente ao acerto do roteiro, que bem equilibra sua história principal com suas subtramas, a direção de Damien Chazelle, também roteirista da película, consegue tornar o filme dinâmico, se espelhando em Cisne Negro (Darren Aronofsky, 2010), em que o balé é acessível ao espectador e envolvente, com seus cortes rápidos e uma câmera com planos eficientes. Whiplash acaba por andar nesse mesmo horizonte; entretanto, no caso, torna o jazz extremamente familiar ao espectador, que aos poucos já sabe as suas músicas principais, tocadas por Andrew e capitaneadas por Fletcher, de cor. Além disso, a montagem que segue o ritmo dos instrumentos, principalmente a bateria de Andrew, e as nuances das atuações tornam a película, em diversos momentos, eletrizante, como poucos filmes de ação conseguem atingir tal patamar de euforia.  

Com certeza, as atuações de J.K. Simmons, principalmente, e de Miles Teller é que dão forma e unidade a Whiplash que, sem elas, não teria a mesma intensidade. A relação desenvolvida entre Fletcher e Andrew é que aumentam a tensão e a emoção de cada cena. Fletcher é um professor que acredita que ao tentar tirar o máximo de seus alunos conseguirá estar cumprindo de maneira satisfatória seu trabalho, ainda que para tanto precise humilhar e pressionar a seus comandados. Tal personagem se configura como uma forte alusão a um torturador ou, porque não, à um ditador que ao ser interrogado do porquê de tais atitudes severas e injustas não se mostra de maneira alguma arrependido ou abalado e consegue justificar todos os seus atos devido a velha suma, erroneamente atribuída a Maquiavel: "Os fins justificam os meios". Essa essência do personagem se torna explícita na cena em que Andrew, ao encontrar Fletcher em um bar e conversar informalmente com seu, agora, ex-professor, o ouve dizer que ele só agia de tal forma para ver se encontrava um real talento e que duvidaria que alguém iria se tornar maior se ele só fizesse elogios. J.K. Simmons está faturando quase todos os prêmios de ator coadjuvante e é, certamente, o vencedor da categoria no Oscar 2015. Nada mais justo após a sua atuação que mescla, com exímia habilidade, humor e drama, conseguindo fazer o espectador sentir empatia por ele, devido ao seu jeito peculiar e absurdo de agir, e ao mesmo tempo repulsa, com seus excessos e maldades cometidos.
Andrew, por sua vez, se mostra como um adolescente que quer ser reconhecido pelo que faz, pelo que gosta e se para isso precisar abdicar das pessoas mais próximas a si, ele o fará. Contudo, o que Andrew não observa é que tudo que ele faz é para provar seu valor para os outros e ao entrar no jogo doentio promovido por Fletcher, envolvendo total concentração e exigência humanamente inaceitáveis, o protagonista se vê isolado e sozinho com um sonho alquebrado. Ainda assim, Whiplash não é um filme pessimista, mas sim fidedigno à realidade, que ilustra com sutileza o que acontece quando alguém deixa tudo de lado por um sonho, acabando por concluir que até pode se atingir tal meta, contudo outras coisas serão deixadas para trás e, possivelmente, sem chances de recuperação ou reparação.


Em suma, Whiplash: Em Busca da Perfeição é um filme de poucos erros que consegue uma merecida indicação ao Oscar de melhor filme. Sempre envolvente e com momentos de habilidosa carga dramática, a película consegue ir em um crescente de emoção, sem soar forçado, terminando em um altíssimo nível, com sua espetacular cena de "batalha final" entre Fletcher e Andrew. Com certeza, um dos melhores do ano.

  NOTA (8.0/10):



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