segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Premiações - E o Oscar foi para...



TEXTO DE: Guilherme W. Machado

A noite do Oscar de 2015 foi marcada pela total consagração do cineasta mexicano Alejandro González Iñarritu, que levou para casa 3 estatuetas (sendo que seu filme ainda levou outra). Todos anos, independentemente da qualidade dos filmes premiados,  é comum sentir uma sensação de desaponto em relação ao resultado do Oscar. Isso ocorre pela ampla expectativa gerada nos meses anteriores e também pela esperança – ainda que mínima – que o espectador sempre sente pela vitória de seus preferidos. A lista do Oscar nunca será integralmente agradável, numa premiação de tantas categorias e tantos concorrentes, é inevitável que cada um visualize seus vencedores ideais. Há, entretanto, anos ruins, nos quais a maioria dos prêmios são entregues a filmes e/ou performances de poucos méritos, e anos bons, nos quais os vencedores tem, em sua maioria, merecimento, mesmo que não sejam aqueles idealizados por nós. 2015 foi, no geral, um ano bom.

OBS: Clique nos nomes dos filmes para ler nossas respectivas críticas.

Não nego que Birdman foi um filme bastante contestado, aclamado por uns e inexpressivo para outros; ele é, todavia, um filme de grandes méritos cinematográficos, sendo, na minha opinião, um dos melhores vencedores do prêmio principal ao longo destes 87 anos de Oscar. Ainda assim, considero um equivoco sua vitória na categoria de Melhor Roteiro Original. Mesmo que seu roteiro seja de alto nível – longe dele ser um vencedor indigno –, 2014 foi marcado por outros ainda maiores, como o maravilhoso O Grande Hotel Budapest, ou o igualmente fantástico roteiro de Boyhood.


Por outro lado, o filme também sofreu derrotas contestáveis, como a de Michael Keaton, no papel de sua carreira, para o excessivamente mímico Eddie Redmayne [ATeoria de Tudo]. O desempenho do britânico foi inegavelmente bom, mas um tanto maneirista – ainda que o de Keaton também tenha sido, com a diferença de que este soube utilizar os excessos a seu favor – e já repetitivo (a academia continua comprovando sua absoluta paixão por atuações de sofrimento físico ou representações de personagens com problemas mentais, sendo esse também o caso de Julianne Moore, vencedora de Melhor Atriz, ainda que essa tenha desenvolvido mais seu personagem e demonstrado mais talento que Redmayne).

Esses pequenos (médios?) equívocos nem se comparam, por sua vez, com a grande bomba da noite: o superficial e ineficiente roteiro de O Jogo da Imitação vencendo como Melhor Roteiro Adaptado. Tudo bem que a vitória já era esperada, mas sempre há a esperança de que justiça seja feita (tanto Whiplash quanto SniperAmericano eram bem merecedores do prêmio, sendo o primeiro o meu preferido). O Jogo da Imitação falha no desenvolvimento de seu personagem, necessitando de explicações fáceis que apenas mascaram o problema, e posiciona-se num grande limbo focal, não se decidindo entre a homossexualidade do personagem (e os problemas que ela lhe trouxe) e seus feitos na guerra, não desenvolvendo bem nenhum dos temas. Um roteiro fraco, premiado pelo lobby do filme (produzido pela Weinstein Company e retratando um personagem real tido como um herói injustiçado).


Os acertos, por sua vez, foram extremamente gratificantes. Emmanuel Lubezki [Birdman] leva seu segundo Oscar consecutivo como Melhor Diretor de Fotografia, sendo justamente reconhecido pelo seu estilo único e – por que não? – genial, um dos maiores nomes da indústria na sua área. Interestelar deu a volta por cima, depois de perder o prêmio do sindicato e o Critics Choice Awards, e faturou o merecido prêmio de Melhores Efeitos Especiais. Ainda nas técnicas, justiça foi feita a O GrandeHotel Budapeste, que venceu em Melhor Design de Produção, Melhor Figurino e Melhor Maquiagem, faturando ainda o merecidíssimo prêmio de Melhor Trilha Sonora Original, com uma consagração tardia (8 indicações e apenas agora o primeiro prêmio) do músico Alexandre Desplat.

Ainda que Marion Cotillard [Dois Dias, Uma Noite], ou até Rosamund Pike [Garota Exemplar], fossem mais merecedoras, não consigo classificar a vitória de Julianne Moore [Para Sempre Alice] como injusta. A atriz entregou uma ótima performance que se soma as inúmeras esnobadas sofridas por ela ao longo dos anos (já mereceu o prêmio algumas vezes), fazendo de sua vitória algo altamente gratificante. J.K Simmons [Whiplash] venceu um Oscar merecidíssimo, ainda que, por um detalhe, eu preferisse Edward Norton [Birdman], e a vitória de Patricia Arquette [Boyhood], mesmo que não fosse minha favorita, também não merece críticas.


 A vontade de ver o há-anos-merecedor Richard Linklater [Boyhood] vencer um Oscar não foi o suficiente para abafar o acerto na premiação do igualmente merecedor Alejandro González Iñarritu [Birdman]. Ambos diretores foram geniais nesse ano, porém confesso que preferi a engenhosa direção em falso plano-sequência do mexicano. Claro que minha torcida original, ainda que sem muita esperança de vitória, era para a brilhante direção de Wes Anderson [O Grande Hotel Budapeste], que infelizmente saiu de mãos abanando.

Melhor Filme Estrangeiro ganhou, previsivelmente, o ótimo Ida. A vitória foi adequada, ainda que Leviatã fosse mais merecedor. Esse prêmio revela o previsível perfil atual da academia quando se trata de premiar os filmes estrangeiros, optando por aqueles com uma embalagem mais “artística”, ainda que o produto em si seja inferior a outros concorrentes (o que nem sempre é verdade). Ida é muito bom, porém Leviatã é um grande filme, memorável, enquanto o polonês tende ao breve esquecimento.


 Enfim, não vou opinar sobre as categorias de animação nem de documentário por não ter assistido aos indicados. Encerro meu texto, portanto, ressaltando a decadência de qualidade das apresentações do Oscar (esse ano feita por Neil Patrick Harris) frente às outras premiações, como o Globo de Ouro. A academia mantém seus índices de audiência pelo (duvidoso) prestígio que adquiriu ao longo dos anos, mas sua cerimônia anda cada vez mais chata, ainda que tenha, nesse ano, se mostrado relevante.


VENCEDORES:

MELHOR DIRETOR: Alejandro G. Iñarritu [Birdman]
MELHOR ATOR: Eddie Redmayne [A Teoria de Tudo]
MELHOR ATRIZ: Julianne Moore [Para Sempre Alice]
MELHOR ATOR COADJUVANTE: J.K Simmons [Whiplash]
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Patricia Arquette [Boyhood]
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: Birdman [Alejandro G. Iñarritu, Armando Bo, Nicolás Giacobone & Alexander Dinelaris]
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: O Jogo da Imitação [Graham Moore]
MELHOR FILME ESTRANGEIRO: Ida [Polônia]
MELHOR EDIÇÃO: Whiplash [Tom Cross]
MELHOR FOTOGRAFIA: Birdman [Emmanuel Lubezki]
MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO: O Grande Hotel Budapeste [Adam Stockhausen]
MELHOR FIGURINO: O Grande Hotel Budapeste [Milena Canonero]
MELHOR MAQUIAGEM: O Grande Hotel Budapeste
MELHORES EFEITOS ESPECIAIS: Interestelar
MELHOR EDIÇÃO DE SOM: Sniper Americano
MELHOR MIXAGEM DE SOM: Whiplash
MELHOR TRILHA SONORA ORIGINAL: O Grande Hotel Budapeste [Alexandre Desplat]
MELHOR CANÇÃO ORIGINAL: “Glory” [Selma]
MELHOR DOCUMENTÁRIO: Citizenfour
MELHOR ANIMAÇÃO: Operação Big Hero


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