sábado, 28 de fevereiro de 2015

Sniper Americano (2014)



MATHEUS R.B. HENTSCHKE

Muitos autores literários já produziram obras que revelam o ufanismo e o nacionalismo como uma característica de dissociação da realidade. Em Triste Fim de Policarpo Quaresma, livro do autor pré-modernista Lima Barreto, tem-se a saga do funcionário público Policarpo, que dedica sua vida inteira a louvar e a idolatrar o seu país, não importando as consequências de tamanha obsessão. Contudo, tal excesso o leva a perder as pessoas ao seu redor, sua sanidade e, até mesmo, sua vida. Nesse aspecto, Sniper Americano, mais novo filme de Clint Eastwood (Jersey Boys), apresenta mais um protagonista que se utiliza da bandeira de sua pátria, a fim de dar um sentido a sua vida, não importando o quanto isso irá afetar a si e as pessoas mais próximas a ele.

A história, baseada em fatos reais e no livro Sniper Americano, relata a vida de Chris Kyle (Bradley Cooper), um sniper dos Seals, que participou da guerra do Iraque e matou mais de 160 pessoas. Além disso, a trama apresenta, paralelamente, a situação do protagonista não só nos campos de batalha, mas também na sua vida pessoal, com a sua esposa Taya (Sienna Miler) e seus filhos. O roteiro se mostra brilhante ao conseguir bem sincronizar vários clichês acerca da guerra e seus envolvidos, concedendo uma nova roupagem a tais elementos. Convergente a esse fator, a película possui méritos ao conseguir extrair a essência de seu protagonista, dando vida a uma pessoa verdadeiramente real e não a um embuste, como inúmeros filmes de guerra o fazem com seus soldados estereotipados e reciclados. Tem-se em Chris Kyle um homem com a frieza e a blindagem de consciência necessárias ao seu ofício, todavia não só isso lhe torna imprescindível no que faz, uma construção de caráter firme e uma educação rígida, o tornaram um homem que se sente obrigado a lutar pelos seus, visto que os ensinamentos de seu pai o grifaram: ser uma ovelha, que vê o mal tomar conta e nada faz; ser um lobo, um predador feroz que destroça os mais fracos, a fim de se sobressair; ou ser um pastor, que é forte o bastante para defender a si e aos seus.

Além dessa base sólida criada para se entender as motivações por trás de Chris, há o seu desenvolvimento como pessoa e soldado que é feita na medida certa, mostrando desde sua juventude, como um caubói que vive a vida como se não houvesse um dia seguinte, até um homem que almeja ser mais e fazer mais. Para tanto, vê-se obrigado a tomar seu posto como um cão pastor por meio da pátria e de um nacionalismo cego, tendo em mente as palavras de seu pai que repercutiram na cabeça daquela criança até formar um homem obcecado pelo seu dever.

A habilidade do roteiro não se resume apenas a uma sólida construção do personagem e ao seu desenvolvimento posterior, mas também a uma gama de relacionamentos pessoais que concedem uma completude à Sniper Americano como poucos filmes de guerra a possuem. Chris, que a pouco havia se casado, é chamado para o Iraque, e, de maneira magistral, Clint Eastwood consegue mostrar como, paulatinamente, o protagonista começa a se sentir um forasteiro em seu lar, em seu país natal, e em casa na guerra, sabiamente ilustradas com as cenas em que o protagonista fica constantemente em silêncio ao lado de sua mulher e no ambiente familiar e, extremamente, aberto e à vontade no meio dos confrontos bélicos que se alastram para todos os lados no Iraque. Entretanto, essa dinâmica não funcionaria caso não fosse a qualidade dos atores envolvidos.

Bradley Cooper consegue aqui trazer à vida um personagem verossímil, que se faz sentir e que não necessita de explicações sobre o quanto o ator se preparou para o papel, tal fato é notório para quem assiste ao filme. Cooper ainda que com toda essa preparação física e psicológica, não deixa transparecer seu esforço e atua com naturalidade, protagonizando um dos melhores papeis de sua carreira até aqui. Sienna Miler não fica para trás e consegue não só acompanhar o ritmo elevado de atuação de seu parceiro de cena, como também o supera em diversos momentos, com o papel de uma esposa de grande inteligência emocional que tenta, de todas as formas, tirar a mente de Chris do Iraque e faze-lo se abrir com ela, para que não tenha que carregar o fardo de sua dor interna sozinho. Sem dúvida, Sienna merecia uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante no lugar da regular atuação de Keira Knightley em O Jogo da Imitação, uma película superestimada pela grande maioria.

O roteiro é incrível, as atuações são impecáveis; porém quem dá forma e ritmo à Sniper Americano é Clint Eastwood, outro injustiçado pela academia. Em tempos que os diretores optam por cenas de ação com a câmera na mão, cortes rápidos e confusos, deixando o espectador com sérias dificuldades de compreensão do que ocorre em cena (constituindo-se em uma forte indireta à Paul Greengrass), tem-se em Sniper Americano um filme com inúmeras cenas de ação, cujos cortes rápidos e uma edição de som que mantém o ritmo frenético, conseguem ser extremamente bem sucedidas e eficientes, conquistando o mérito de envolvimento e compreensão de cena, até mesmo, em momentos praticamente impossíveis de se realizar tal feito. Prova disso pode ser vista na cena em que o grupo de Chris se vê encurralado no alto de um prédio por inimigos e uma tempestade de areia os alcança, ocorrendo uma intensa troca de tiros que se apresentam, aos olhos do espectador, de sobremaneira envolvente e inesperadamente inteligível.
Eastwood acerta brilhantemente em sua montagem tanto durante a ação, quanto quando essas cenas são abruptamente cortadas para mostrar Chris já em casa, nos Estados Unidos, concedendo a mesma sensação do protagonista àqueles que assistem à película: de que a guerra está em outro continente, todavia continua a bater no coração e na cabeça de Chris. Outro mérito de Eastwood e de seus atores, é o fato da película permutar entre gêneros distintos, indo da ação para o drama, do drama para o romance e do romance para ação sem se tornar enfadonho ou redundante, conseguindo tornar cada uma dessas vertentes necessárias ao desenrolar da trama e ao desenvolvimento de seus personagens.

Em resumo, Sniper Americano consegue abranger todo um período histórico através da fonte que realmente importa: o fator humano, sem ser cartunesco, como em Corações de Ferro (David Ayer, 2014), ou distante, como em Invencível (Angelina Jolie, 2014). É possível sentir os horrores da guerra tanto para aqueles que tiveram seu país invadido, quanto para aqueles que o invadiram, mostrando que tal recurso não traz a sensação de vitória nem para os vencidos nem para os vencedores. Nessa ilustração histórica, tem-se em Chris Kyle um personagem completo, ao se mostrar como pastor ao defender a sua pátria e a seus colegas no Iraque; como ovelha ao ver sua mulher e o crescimento de seus filhos de forma ausente e distante, mesmo quando estava de corpo presente; e também como lobo ao ter a guerra pulsando em suas veias e as pessoas ao seu redor tendo de aceitar aquele Chris que agia como se fosse uma bomba, sempre em um silêncio incomodo, barulhento, mas que a qualquer minuto poderia vir a estourar.   

  NOTA (8.0/10):

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