sábado, 21 de fevereiro de 2015

Selma- Uma Luta Pela Igualdade (2014)


MATHEUS R.B. HENTSCHKE
Barack Hussein Obama II foi o primeiro presidente negro eleito na história dos Estados Unidos da América. Tal vitória não foi obtida por uma campanha eleitoral ou sequer pelo voto dos seus eleitores, mas sim por uma longa e antiga batalha protagonizada por bravos homens e mulheres, jovens e velhos, negros e brancos que lutaram contra todos os mais diversos tipos de injustiças e barbáries cometidas por aqueles que viam na igualdade racial um motivo de ódio e de total repúdio. Nesse contexto, Selma- Uma Luta Pela Igualdade veio com a responsabilidade de ilustrar os esforços de um homem e seus discípulos, a fim de obter a humanidade que é direito a todos, todavia que era um privilégio até pouco tempo atrás. 

Esse homem se chamava Martin Luther King Jr. e tem em Selma não toda sua vida representada, mas sim uma das maiores batalhas já travadas em vista do bem comum, em que esteve diretamente envolvido: a marcha na cidade de Selma, que visava garantir o direito de voto aos negros americanos por volta dos anos 60. Uma película que trata de um tema tão sério e profundo, tem a responsabilidade e a obrigação de não ser leviana e conseguir marcar seus espectadores. Selma- Uma Luta Pela Igualdade faz jus a essa seriedade e ao decoro que tem de se haver com um assunto tão recente e, infelizmente, ainda não superado, sendo impressionante constatar como o filme da diretora Ava DuVernay consegue compreender essa responsabilidade que possui e se apresenta como uma obra que honra a memória de todos aqueles que passaram, passam ou passarão pelos horrores do racismo e da segregação racial.
O roteiro, com seus diálogos afiados e densos, não quer transformar Martin Luther King em um herói, fato ocorrido em Lincoln (Steven Spielberg, 2012), em que o protagonista título se mostrava como o ser mais justo e equânime já visto na face da terra. Em contramão desse desserviço, tem-se no protagonista de Selma um homem que se mostra como um gigante ao agir como um líder seja em seus discursos habilidosos e emocionantes, seja ao ter de tomar as decisões como a cara pública de toda uma revolução pacífica. Contudo, o roteiro acerta ao mostrar o outro lado da moeda, em que se vê Martin Luther King como um homem, que está perto de ter seu ponto de ruptura atingido, cansado com uma guerra em que não se vê o menor sinal de vitória há tempos. Convergente a isso, a obra não tenta ocultar pontos mais delicados do homem por trás da imagem e chega a tocar em aspectos de sua vida como o do adultério. Tal artimanha do roteiro, de condensar nesse personagem o herói e o homem o humaniza, fazendo-o tangível e engrandecendo ainda mais a lenda, já que não é apresentado um ser exterior às capacidades humanas, mas sim um homem que tem virtudes e defeitos, todavia que coloca tudo de lado, inseguranças, dificuldades familiares e perigos reais por uma só questão: por uma causa. 

David Oyelowo consegue entender o objetivo da produção e atua com essa dualidade em mente: a do pastor que tem de guiar o seu rebanho e a do homem que tem suas fraquezas e suas vicissitudes a enfrentar. Sua atuação consegue um superávit enorme de equilíbrio, fazendo de seu personagem uma pessoa de carne e osso, que opta por fazer algo mais e representar uma ideia, sem nunca deixar de ser somente um ser humano. É nesses momentos que desanima saber que o Oscar prefere valorizar atuações análogas à própria vida do intérprete em contraste ao trabalho de Oyelowo, que entrega um trabalho sólido e com uma naturalidade notória. Não apenas ele, no entanto todo seu elenco de apoio, ainda que nem um chegue a ser amplamente trabalhado, uma vez que o foco da película não são seus personagens individualmente, mas sim uma história, uma causa. Entretanto, desde os personagens ao lado da luta pela igualdade de direitos, como a de Oprah Winfrey (Annie Lee Cooper), o de Henry G. Sanders (Cager Lee) e a de Carmen Ejogo (Coretta Scott King) até a dos contrários e neutros à causa, como o de Tim Roth (Governador George Wallace) e o de Tom Wilkinson (Presidente Lyndon B. Johnson), respectivamente, têm seus espaços de cena na medida certa e contribuem, ainda que sejam em breves momentos, para construir aquele período histórico que se constituía nos EUA. 
Quanto a direção de Ava DuVernay é onde se tem o ponto mais alto da obra. No início da película já se entende o tom que a diretora quer dar à Selma- Uma Luta Pela Igualdade: na cena em que as meninas negras estão conversando sobre trivialidades da vida de uma criança, um ato atroz interrompe tal momento e uma explosão as chacina, chocando o espectador de sobremaneira. Assim, Ava demonstra o seu intuito, o de chocar, o de impactar, não apenas em alguns momentos, todavia sempre. Selma é o tipo de filme em que não se há tempo hábil para recuperar o fôlego, visto que a diretora consegue manter o nível de emoção e de carga dramática em um ponto tão elevado, que o espectador passará a película inteira com um grito preso na garganta e lágrimas a segurar. Cada filmagem que enquadra o grupo de manifestantes dando os braços para mais uma manifestação ou cada tomada da nuca de Oyelowo para seu conseguinte discurso são de emoções intensas, fato raro em qualquer filme histórico. É impressionante que em um período que a morte já se tornou uma constante na vida do ser humano, que basta ligar a televisão e em cinco minutos de noticiário verá algumas dezenas, Selma consegue tornar cada uma delas singulares e atinge o público tão calejado na vida real. Mais uma vez, o Oscar erra feio e fica difícil entender como Ava DuVernay ficou de fora das indicações.

Selma- Uma Luta Pela Igualdade é um projeto em que o empenho de cada integrante da película é notório e tal esforço não foi em vão, conseguindo entregar uma obra responsável com um tema de valor imenso tanto para as gerações passadas, quanto as que estão por vir. É possível sentir a força daqueles homens e mulheres que enfrentaram tamanhas injustiças, de uma luta que não foi em vão e culminou em amplas vitórias para os negros e para nação americana como um todo, que hoje não só possuem o direito de voto, como o de votar em um presidente negro. É uma pena que nos dias de hoje o que gera debate não é uma obra desse calibre e amplitude histórica, mas sim de filmes efêmeros e de temas tão rasos, como A Entrevista (Seth Rogen, Evan Goldberg, 2014) e Cinquenta Tons de Cinza (Sam Taylor-Johnson, 2015).

  NOTA (8.5/10):

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