domingo, 1 de fevereiro de 2015

Birdman OU A Inesperada Virtude da Ignorância (2014)


GUILHERME W. MACHADO

Há quase 7 décadas, um cineasta de ampla ambição e enorme ego adotou a controversa ideia de realizar um filme sem cortes, ou que parecesse como tal (uma vez que tal ato não era possível por causa do tamanho dos rolos de filme). Hitchcock podia até ser um diretor megalomaníaco, mas fato é que seu Festim Diabólico (1948) acabou se tornando uma obra-prima ímpar na história do cinema. Se Birdman terá essa longevidade, ainda não posso afirmar, mas sua relação com o filme anteriormente citado é inevitável – e sei que não sou o primeiro e nem serei o último a fazê-la. Iñarritu, como Hitchcock, é um cineasta egocêntrico e que busca a grandiosidade e o reconhecimento em todos os momentos. Com Birdman ele entrega uma obra à nível de suas pretensões.

Birdman é um filme insano, surtado, que flui num ritmo frenético e completamente imersivo. Independentemente de toda qualidade de seu conteúdo, a nova obra de Iñarritu é, acima de tudo, uma magistral experiência cinematográfica, milimetricamente precisa e orquestrada. Como o próprio diretor afirmou numa entrevista, Birdman é um filme regido pelo ritmo, pela batida de sua alucinante trilha sonora, uma espécie de filme-jazz – numa forma de amplificação conceitual do já bem sucedido Whiplash. Todos os méritos devem ser dados à direção de Iñarritu, que conduz seu filme sem se impor limites, mas sempre sabendo controlar seus excessos malabarísticos e aproveitá-los em prol da obra, nunca dando a sensação de exibicionismo gratuito em suas escolhas narrativas.
Diferentemente de Foxcatcher – para pegar um exemplo recente – que é um filme cheio de qualidades individuais, mas com pouca sintonia entre as mesmas, Birdman é sinergia pura. Todos seus elementos dialogam de forma perfeita, o que se mostrou vital para o funcionamento da incomum (para dizer o mínimo) narrativa de Iñarritu, na qual qualquer erro ou peça fora do lugar comprometeria o conjunto, desequilibrando o ritmo tão precisamente construído.

Iñarritu e seu grande elenco apostam convictamente no “overacting” (atuação baseada no excesso expressivo), o que convém perfeitamente para esse tipo de filme. Ainda assim, todos eles mergulham de cabeça no conceito e combinam-se de forma perfeita em cena, sendo possível que haja duas ou mais grandes performances dividindo a cena sem que uma ou outra seja ofuscada. Feito que reflete também nas escolhas feitas pela direção, que muda constantemente o foco e valoriza devidamente o potencial de todo seu elenco. Keaton pode estar sendo o mais elogiado, e realmente sua atuação foi ótima; é justo, entretanto, que igual ou maior mérito seja dado a Norton, monstruoso em cena, e a Stone – mesmo com pouco tempo na tela – que foi quem melhor manejou os excessos, sem nunca abandoná-los, conseguindo ainda destacar-se muito. Naomi Watts (excepcional atriz), por sua vez, trabalha muito, mas tem pouquíssimo destaque, ainda que seu papel seja um dos mais interessantes do filme (a meu ver, um potencial pouco explorado por Iñarritu).
A história de Birdman é um grande e generalizado ataque à indústria cinematográfica, e até à teatral, soando quase como um desabafo de Iñarritu – que embute questões pessoais na história – sob a forma de uma sátira. O roteiro trabalha os diálogos e as situações com uma inteligência admirável, disparando críticas enlouquecidamente: da futilidade dos blockbusters de super-heróis à prepotência da elite do teatro. Ninguém escapa da ótica corrosiva desse roteiro, que é o favorito ao prêmio de Melhor Roteiro Original do Oscar de 2015, ainda que eu tenha minhas dúvidas se a academia premiaria um roteiro tão crítico à própria ideologia da premiação.

Semelhante na intenção com o excelente Acima das Nuvens (Olivier Assayas, 2014), Birdman explora a metalinguagem nas suas mais profundas atmosferas, não apenas internas no filme, como também externas em relação à vida de seus atores e até de seu diretor. A relação óbvia entre Michael Keaton e seu personagem foi o motivo pelo qual ele conseguiu o papel em primeiro lugar – e que bela escolha de Iñarritu ao escalá-lo, semelhante ao que Assayas fez ao escalar Kristen Stewart para o seu Acima das Nuvens. Edward Norton é outro ator que coube perfeitamente no seu personagem, que é uma versão exagerada dele mesmo, conhecido por ser um ator difícil de trabalhar. Até mesmo o próprio Iñarritu se vê refletido no filme, no que trata do egocentrismo e na busca desesperada por reconhecimento. O genial jogo metalinguístico de Birdman é tão rico em camadas que eu não acredito na decadência dessa obra com o tempo, pelo contrário, creio que ela apenas crescerá em prestígio.
Numa das mais interessantes cenas do filme, Riggan Thompson (Michael Keaton) discute com Tabitha (Lindsay Duncan), a principal crítica teatral da Broadway, e ele diz algo como “você apenas rotula a arte” (não me recordo das exatas palavras, mas esse era o significado). Realmente, Birdman é um filme para o qual rótulos não se aplicam, muito pela sua própria excentricidade, enquanto isso, só me resta aplicar minha nota.


  NOTA (8.5/10):

Nenhum comentário:

Postar um comentário