quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Birdman ou A Inesperada Virtude da Ignorância (2014)


MATHEUS R.B. HENTSCHKE

Um relógio quebrado. Um relógio vistoso. Um relógio primoroso. Um relojoeiro, profissão que se destina a reparar relógios, apenas conseguirá dizer, com exatidão, acerca da qualidade de um relógio, se abri-lo e visualizar o funcionamento de suas engrenagens internas. Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância), com seus bombardeios sonoros e ilusões visuais, necessita do mesmo trato que um relojoeiro dá ao seu material de trabalho, a fim de conseguir analisar com precisão o que funciona e o que é apenas um embuste na película tão aclamada pela crítica em geral.

Riggan Thomson (Michael Keaton) é um ator que viveu seu auge no cinema como o herói Birdman, em três filmes de grande sucesso, nos anos 90. Com o passar dos anos e sua carreira beirando ao final, Riggan resolve voltar para mais uma empreitada como ator, agora também como diretor, na Broadway. Contudo a história não se limita a esse simples enredo, mas sim adiciona várias outras alegorias e referências, que vai desde as mais corriqueiras, como a de um homem fora de seu tempo contrastando com as redes sociais, até as mais inusitadas, como a das possíveis habilidades de levitação e telecinese do protagonista com margem para diversas interpretações.

De fato, Alejandro González Iñarritu (Babel e 21 Gramas), diretor e um dos quatro roteiristas da película, tenta trabalhar vários tópicos com seu roteiro: os excessos cometidos pelos críticos da arte, que só sabem rotular, a dura vida de um homem frustrado e egoísta, que a tudo perde por não saber pensar em outra coisa além de si, as redes sociais e aqueles que optam por não aderi-la, o relacionamento pai e filha, a relação entre atores e atrizes, a vida de alguém que se recupera das drogas, uma sátira do caminho que Hollywood está tomando ao valorizar filmes de ação em contraste com filmes "sérios"... Enfim, entre outros assuntos. Sem dúvida, Birdman acaba por ser exageradamente ousado na sua ânsia de falar sobre vários tópicos e de ser abrangente, entretanto não aprofunda quase nenhuma dessas questões deixando de ser ousado e se tornando apenas pretensioso (impossível não rotular algo tão evidente). Realmente é uma incógnita o porquê da indicação ao Oscar de melhor roteiro para tal filme, uma vez que é notória a tentativa de Birdman em ser complexo e agressivo, contudo não o consegue faze-lo e todo e qualquer mérito que o filme possa merecer corre longe de seu roteiro.
Em contrapartida, Alejandro González Iñarritu como diretor se mostra muito habilidoso, bem como seu diretor de fotografia Emmanuel Lubeski. Iñarritu opta por entregar um verdadeiro show visual, que mostra toda a sua perícia como diretor, tecnicamente falando. Tal ponto está bem ilustrado nas inúmeras cenas de plano médio focando, quase sempre, as costas de seu personagem e valorizando os corredores do teatro, onde boa parte da película se passa, concedendo uma marca interessante ao trabalho do diretor. Convergente a isso, Lubeski tenta ludibriar os espectadores com seus planos-sequência que emulam a ausência de cortes e concedem a película uma ideia de continuidade fantástica. Essa parceria, aliada a uma trilha sonora perturbadora, concedem a Birdman uma sensação claustrofóbica e agitada, de estarmos habitando o mesmo ambiente daqueles personagens cheios de peculiaridades e problemas. Apesar de toda essa qualidade técnica, o filme acaba por se tornar exaustivo com toda essa atmosfera passada e suas repetições de planos e truques visuais. Além disso, acaba por se tornar vazio, visto que o roteiro de Iñarritu não acompanha sua habilidade como diretor, com diálogos fracos e seu falho múltiplo foco em questões diversas sem aprofundá-las.

No meio de toda essa overdose imagética e de delírios alegóricos, há um poderoso elenco, pelo menos no papel. Formado por Naomi Watts, Emma Stone, Edward Norton e capitaneados por Michael Keaton, o grupo se mostra bem entrosado e nomes de peso, como esses, bem entrosados deveria representar cenas marcantes e fortes destaques nas atuações. Entretanto, tal previsão não se concretiza e o que se vê é grandes atores e atrizes que funcionam juntos, mas, possivelmente, graças a um roteiro pífio, ninguém consegue se sobressair. A personagem de Naomi Watts aparece pouco e é mal desenvolvida, todavia sua habilidade de atuação é tão grande que, mesmo assim, consegue desempenhar bem o seu papel. Michael Keaton, protagonizando um papel análogo ao de sua vida, é superestimado pela academia ao concorrer como favorito ao Oscar de melhor ator. Keaton atuou apenas bem e tem uma indicação merecida, ainda que a vitória seja um exagero, uma hipérbole. Emma Stone se mostra a atriz mais interessante nesse elenco estrelar, ao conseguir dar vida a uma personagem revoltada, com problemas com o pai e as drogas, sem nunca soar forçada ou estereotipada. Recebe uma justa indicação ao Oscar de melhor atriz coadjuvante e uma forte promessa para o futuro. Por último, Edward Norton faz o possível com seu delicado personagem, que facilmente poderia cair no escracho, e tamanho esforço foi justamente reconhecido pela academia.

Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) tem a aparência de um relógio caro, com seus entalhamentos bem trabalhados e vistosos, porém ao se examinar o seu interior e observar suas engrenagens, nota-se que não possui a mesma qualidade de seu invólucro. A película poderia ser resumida por rótulos: parte técnica de qualidade, ainda que repetitiva, roteiro pretensioso e atuações apenas boas. Se alguém, como eu, esperava desse filme o inusitado, como, no ano passado, tivemos em O Lobo de WallStreet (Martin Scorcese) e Ela (Spike Jonze) desista, Birdman é um embuste como um filme diferenciado. Agora resta saber como a crítica especializada se encantou com um filme que tenta transgredir os parâmetros do comum, porém acaba ficando em sua redoma. Talvez a melhor explicação esteja no título: A Inesperada Virtude da Ignorância.


  NOTA (7.5/10):



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