quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Closer - Perto Demais (2004)







MATHEUS R.B. HENTSCHKE
Na literatura, a paixão e a desilusão amorosa já foram tratadas com maestria pelas palavras e textos de grandes mestres, como Érico Veríssimo e sua obra Olhai os Lírios do Campo, em que um jovem médico, ambicioso por ter prestigio, como nunca tivera na infância, por advir de uma família humilde, toma uma sucessão de decisões erradas, deixando seu verdadeiro amor de lado, a fim de suprir sua necessidade compensatória. Ao perceber o erro, o tempo já não mais permitia remendos, somente conviver com o que sobrou do seu ser e tentar viver e se reconstruir com esse resto, esse vazio.

Desejo. Paixão. Sensualidade. Desilusão. Closer- Perto Demais se apropria de uma narrativa única e complexa, cuja gama de intrincadas relações, poucas vezes a literatura alcançou. Com o seu quarteto amoroso, a película brinca com os encontros e desencontros entre essas pessoas, bem como a gradual evolução e estagnação pela qual o ser humano constantemente passa ao longo de seus relacionamentos.

Cada personagem, ainda que com atitudes semelhantes, é único e movido por um sentimento e filosofia diferentes. Enquanto Alice (Natalie Portman), se move por um amor romântico, intenso e de suposta cumplicidade, Anna (Julia Roberts) necessita de um relacionamento secreto, culpado, adúltero. Cada diálogo, cada desenvolvimento de relacionamento mostra uma faceta de cada personagem, revelando seus impulsos e sentimentos mais profundos, conseguindo se fazer sentir ao espectador, que acaba por se envolver com cada momento, do início ao fim, seja com uma trilha sonora que capta a atmosfera do filme com perfeição ( diga-se de passagem, a excelente cena de abertura e fechamento com The Blower’s Daughter), seja com esses personagens verossímeis e sinceros, que permitem a cada um dos atores e atrizes ter um papel de força lírica marcante.
Closer não é um filme de romance tradicional. Assim como Olhai os Lírios do Campo, de Veríssimo, não há saídas fáceis e finais felizes. O que há, são personagens que ao longo de cada relacionamento que se quebra, uma parte deles se vai junto e com esses fragmentos que sobram é que cada um tem de seguir em frente ou tentar voltar atrás. O diretor Mike Nichols (A Primeira Noite de um Homem,1967) faz de seus personagens o centro, com grande complexidade e poder de envolvimento, se saindo muito bem sucedido, com um minimalismo que torna cada personagem não mais um, mas sim, um ser humano de carne osso. É difícil elencar qual ator ou atriz se destacou mais: Natalie Portman, Jude Law, Julia Roberts ou Clive Owen? Pelas premiações, Clive Owen e Natalie Portman conseguiram mais indicações e foram premiados no Globo de Ouro e indicados ao Oscar. Entretanto, Jude Law e Julia Roberts não ficam atrás.
 Cada um consegue trazer a vida um personagem movido pelo instinto, que só muda sua atitude ao se ver na pior, revelando algumas breves mudanças de comportamento e externando o pior da faceta de cada um, que acabam por aceitar o que for necessário deixar ou levar para sobreviver. Larry (Clive Owen) é movido pelo instinto do prazer, do sucesso não se importando se Anna (Julia Roberts) é a sua parceira ideal, mas sim tendo em mente o objetivo de manter seu “status quo” de um homem de sucesso, não podendo, com sua arrogância, perdê-la para um escritor medíocre, Dan (Jude Law). Ao perdê-la, se rebaixa ao nível de ter de implorar e humilhar as mulheres ao seu redor, para tentar dar a volta por cima e continuar a melhor suprir suas necessidades, ou seja, uma parte de Larry, o seu eu arrogante, é preciso abdicar por um momento e sua parte mais pérfida, de querer as mulheres como objeto, vem à tona mais forte ainda. Dan, por sua vez, vive pelo instinto do romance, do flerte, até que ao se ver por baixo, ao perder Anna, sua amante, acaba por abdicar momentaneamente deste instinto e se rebaixa a um relacionamento frio e de conveniências com sua antiga parceira Alice, até que se torna insustentável tal relacionamento e Dan fica sozinho, tendo de reparar seus danos interiores.

Alice, que, inicialmente, parece a mais frágil de todas personagens, com sua dissimulação para ocultar seu excesso de sinceridade e quase um jeito infantil de agir, que lhe concede o apelido de “anjo” pelos demais personagens da película, dá uma volta no espectador e se revela a mais independente e auto-suficiente de todos. Sempre em busca de um relacionamento forte, Alice se faz deixar entregar facilmente, mas, internamente, ela leva seu mote a sério: “eu sempre dou o fora”. Anna, tem a necessidade de viver um romance proibido, extraconjugal, que lhe dá uma sensação de sobrevida e liberdade. Para tanto, ela opta ter aquele que já não está mais a seu alcance, nessa constante necessidade de obter o proibido, o errado.
Em suma, no filme Antes do Amanhecer (Richard Linklater, 1995), o relacionamento amoroso aparece de forma intensa, bem sucedida, enquanto em Closer, a desilusão amorosa aparece como uma constante; contudo, não deixa de ser menos envolvente com seus diálogos afiados e que escarnam a mente humana e sua relação com os outros de maneira exemplar. Méritos ao diretor Mike Nichols e ao roteirista Patrick Marber por sua vivacidade na obra, que sem mostrar sequer uma cena de sexo, conseguem abranger todo instinto sexual por trás do ser humano bem como suas falhas e vicitudes. De fato, Portman foi justa em entrevista recente que concedeu, ao afirmar que a sua carreira ia mal após Star Wars, onde foi muito criticada, injustamente, diga-se de passagem, e Nichols lhe ofereceu um papel em Closer, que salvou sua carreira. Não só a sua, mas elevou a um novo status seus demais colegas de cena.

NOTA (9.0/10):

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