domingo, 28 de dezembro de 2014

O Abutre (2014)





GUILHERME W. MACHADO

A primeira “aventura”, por assim dizer, do roteirista Dan Gilroy na direção aponta um cineasta habilidoso e consciente do seu estilo. A verdade é que O Abutre não apresenta, de forma alguma, qualquer característica amadora, pelo contrário, o filme é construído de forma tão eficiente e concisa que parece ser feito por um cineasta mais maduro. Ainda que sua mensagem seja um pouco vaga, e nem um pouco original, sua abordagem é interessante e o filme conta com bons talentos, como o ator Jake Gyllenhaal e o excelente diretor de fotografia Robert Elswit, para torná-lo, no mínimo, notável.

Por mais que a história aborde novamente o tema do jornalismo sensacionalista, como vários grandes filmes já fizeram, ela o faz pela ótica fria de um homem ambicioso e solitário que, de forma bem ampla, representa alguns segmentos sociais modernos. Louis Bloom é um personagem único, muito bem construído e fantasticamente interpretado por Jake Gyllenhaal. A partir dessa abordagem, Gilroy faz de seu filme não apenas uma forte crítica ao jornalismo sensacionalista – e ao público que o consome –, mas também um intrigante estudo de personagem que muito revela sobre a sociedade atual.


Ora, não é difícil afirmar que Bloom é um psicopata (ainda que muitos associem, erroneamente, o termo apenas a serial killers): uma pessoa sem sentimentos ou emoção, fria e objetiva. Na ausência de qualquer tarefa que movimente sua vida, uma vez que ela jamais será movimentada por emoções, ele gasta todo seu tempo livre – que é todo tempo no qual ele não trabalha ou procura por trabalho – na internet, estudando e aprimorando suas habilidades comerciais. Ele rapidamente descobre que seu talento está em ser um “nightcrawler” (uma espécie de cameramen freelancer que cobre chamadas policiais noturnas), um trabalho que desempenha perfeitamente, até porque combina com sua falta de escrúpulos. A partir daí nos é mostrada, de forma cada vez mais perturbadora, a ambição e a frieza absoluta do personagem, cujo único objetivo na vida é crescer no seu trabalho (ainda que não tenha com o que gastar seu dinheiro, exceto com coisas relacionadas a sua profissão).

A direção de Dan Gilroy buscou emular, em termos estilísticos, a do recente Drive (2011), havendo também vários outros pontos em comum entre as obras – até mesmo o pôster. De toda forma, o diretor explorou muito bem a metalinguagem presente em sua história, que é justamente sobre o poder da imagem, mais especificamente: do enquadramento. Esse viés metalinguístico é, por sinal, meu aspecto favorito do filme. O Abutre aponta a força do enquadramento e da composição da imagem para causar certa reação no público. Senti um pouco de falta, entretanto, de uma utilização mais ampla dos planos subjetivos (que seriam os filmados por Louis nas ocorrências), que o diretor usou em poucos momentos, sendo a maioria deles na televisão – seria interessante utilizá-los mais nas próprias cenas em que foram filmados.

Um dos grandes méritos da parte técnica está no uso e abuso da qualidade de seu diretor de fotografia, que serviu como grande apoio para que o estilo almejado por Gilroy fosse atingido. O veterano Robert Elswit – mais conhecido por seus frequentes trabalhos com o diretor Paul Thomas Anderson – captou de forma magistral o espírito da cidade de Los Angeles, tanto nas cenas diurnas (filmadas em película), quanto nas noturnas (filmadas em digital).

Na parte das atuações, o filme depende inteiramente de Jake Gyllenhaal, que carrega o fardo sem dificuldades. Por mais que tenham alguns elogios a Renée Russo, a verdade é que a atriz fez uma atuação “confortável”, sem se entregar muito ao papel, que lhe oferecia muitas oportunidades de destaque que poderiam ser melhor aproveitadas. Gyllenhaal, por sua vez, se entrega completamente a um personagem bem difícil e que fica no limite da atuação forçada, sem nunca excedê-lo. Possivelmente a melhor atuação de sua carreira até agora.

O Abutre pode ser um filme com uma premissa nada original e com uma roupagem estilística também já conhecida; ele alia, todavia, os pontos positivos de suas referências num filme que, por mais que não traga nada novo, explora muito bem o material que tem, trabalhando de forma bastante eficiente temas pertinentes à sociedade atual. Dan Gilroy ataca o jornalismo sensacionalista fazendo do espectador uma espécie de cúmplice do mesmo, nos colocando constantemente no perturbado ponto de vista de seu engenhoso protagonista. Belo filme.



  NOTA (7.5/10):


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