sábado, 20 de setembro de 2014

O Homem que Matou o Facínora (1962)



GUILHERME W. MACHADO

“Nothing's too good for the man who shot Liberty Valance.”

Muitas vezes ao longo dos anos o gênero Western foi associado diretamente com John Ford. Ainda que, pessoalmente, eu ache Sergio Leone incomparável, é inegável que Ford é o expoente máximo do Western americano tradicional, que em muito difere do famoso Western Spaghetti italiano de Leone. A fase áurea do gênero já era passado em 1962, quando o lendário diretor faz esse seu atestado definitivo sobre o fim de uma era: O Homem que Matou o Facínora.


Ford apresenta aqui um maior refinamento em relação ao seu célebre início de carreira. A parte técnica é maravilhosa e compõe um visual digno de aplausos, com destaque para a fotografia. As cenas de ação são marcantes e o filme todo é conduzido com muito estilo e violência, dando um ar quase moderno ao mesmo. Os enquadramentos milimetricamente precisos e, na sua maioria, fixos (poucos movimentos de câmera, utilizados apenas em momentos específicos), funcionaram muito bem com a excelente montagem, compondo vários momentos marcantes dentro do próprio gênero. A cena do primeiro encontro entre Tom Doniphon (John Wayne) e Liberty Valence (Lee Marvin) no restaurante, por exemplo, é impecável.

“I know those law books mean a lot to you, but not out here. Out here a man settles his own problems.”

De qualquer forma, o diretor ainda incorre em alguns vícios, fixados ao longo de sua carreira, que por vezes incomodam. O humor forçado e constrangedor é um exemplo; nesse filme, todavia, ele é menos desagradável que o normal. O patriotismo exagerado – simbolizado claramente na cena da escola, que nada mais é do que propaganda política – é outro caso. Há também uma ridicularização da imprensa – que se concerta um pouco no fim do filme com uma fala clássica –, através do personagem do jornalista bêbado, que beira ao patético. Esses defeitos, ainda que não sejam tão pequenos, não tiram a força desta grande obra que, para mim, é o filme mais envolvente do diretor, talvez o melhor.
O Homem que Matou o Facínora, porém, vai além de todas suas brilhantes técnica e qualidade de narrativa. John Ford faz de seu filme um honrável retrato do fim do velho oeste tradicional – ainda que não tenha sido, a rigor, o último. A evidente oposição entre leste (civilização como conhecemos) e oeste (lei do mais forte) é onipresente na obra e tem como símbolos bem definidos a dupla de protagonistas: James Stewart, o leste; e John Wayne, o oeste. Toda analogia feita por Ford em cima dessa lógica enriquece sua obra e dialoga com toda sua carreira, o que torna Facínora um épico último episódio de um gênero tão longevo.

-You're not going to use the story, Mr. Scott?- No, sir. This is the West, sir. When the legend becomes fact, print the legend.”

  NOTA (9.0/10):

          

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