quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Fuga de Nova York (1981)




GUILHERME W. MACHADO

John Carpenter sempre foi um cineasta com a notória habilidade de criar um mundo paralelo completamente absurdo e fazê-lo de forma perfeitamente natural e crível para quem assiste seus filmes. A meticulosa cadência com a qual desenvolve seus universos e a sua facilidade de expor as regras particulares deste sem tornar-se meramente didático fazem de Carpenter um dos maiores manipuladores da história do cinema 
 e não, não faço essa afirmação na empolgação, a apoiarei sempre que me for solicitado. Dentre todos seus talentos, que são bastante consideráveis, esse é, para mim, um dos que mais merecem destaque, se não for seu principal.

A premissa de Fuga de Nova York é igualmente absurda e intrigante: no futuro ano de 1997 (o filme foi feito em 1981), a cidade de Nova York – mais especificamente a ilha de Manhattan – foi transformada numa enorme prisão de segurança máxima para onde são mandados os criminosos mais perigosos com sentença perpétua. Embora a prisão seja a prova de fugas e perfeitamente fortificada, não há qualquer guarda ou autoridade no seu interior, de tal forma que ela é governada pelos próprios prisioneiros. O ponto de partida da história se dá quando o avião que transporta o presidente (Donald Pleasence) para uma importante conferência é capturado por um grupo de rebeldes e cai dentro da prisão. O comissário da polícia (Lee Van Cleef), impedido de organizar um resgate sob a ameaça da execução do refém, manda o já condenado à prisão Snake Plissken (Kurt Russell), um ex-militar altamente qualificado, numa missão com prazo de 24 horas para resgatar o presidente antes do fim da conferência.


O controle de Carpenter sobre sua obra é total, indo desde a produção protagonizada por sua parceira de longa data Debra Hill, envolvendo evidentemente a direção e o roteiro, e indo até setores técnicos como a excelente trilha sonora, mais uma vez composta por ele (um de seus talentos subestimados). Dessa forma, o diretor não deixa nada ao acaso, empregando seu gigantesco talento narrativo para criar uma rocambolesca trama de ação/ficção através da qual ele constrói o discurso político que acompanha boa parte de sua carreira. Na superfície, Fuga de Nova York é apenas sobre a sua ação – e é inegável o quanto ela é um elemento importante do filme –, mas na essência o filme é uma grande crítica de Carpenter ao autoritarismo do Estado. As veias anárquicas do diretor, que chamaram tanta atenção no clássico pulp Eles Vivem [1988], encontram forte referência nessa obra, 7 anos anterior.

Todo trabalho visual e atmosférico do filme é excelente e vital para o envolvimento do público, que é bastante grande. A criação de uma Manhattan marginalizada e com tons até apocalípticos foi perfeita e compôs o cenário ideal para os níveis de suspense e ação impostos no decorrer da trama. Dean Cundey (que também fez os três primeiros filmes da franquia Halloween e todos De Volta para o Futuro) certamente foi um dos grandes diretores de fotografia da época, tendo nesse filme alcançado o seu ápice estético. Fuga de Nova York é deslumbrante, um espetáculo visual de primeira e de por inveja hoje, na época do CGI.

Por mais que a contemporaneidade cada vez mais queira desconsiderá-lo, o divertimento pode sim ser um fator muito importante no cinema (o que nunca deve ser desculpa para fazer um filme porco e querer validá-lo por ser "puro entretenimento"), e ele era uma constante na produção mainstream dos anos 80, basta lembrar de filmes como Curtindo a Vida Adoidado [1985], Exterminador do Futuro [1984] e E.T [1982], por exemplo. Fuga de Nova York é divertimento constante, de lembrar os bons tempos de Hawks e Tourneur – dois diretores que frequentemente uso para falar de Carpenter, aliás , é o cinema americano na sua essência, e isso de forma alguma é um argumento pejorativo.

Fuga de Nova York é um dos marcos dos filmes de ação/ficção dos anos 80 e uma das maiores obras do seu diretor, John Carpenter, reunindo muitas das qualidades presentes no seu cinema – inegavelmente autoral, ainda que muito questionado por público e crítica – e oferecendo ainda uma visão crítica sobre a política norte-americana da época, mas que ainda configura um retrato teórico pertinente a nossa realidade. Um filme que aprecio mais a cada revisão.

  NOTA (9.5/10):

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