sábado, 10 de maio de 2014

Onibaba - A Mulher Demônio (&) O Gato Preto




GUILHERME W. MACHADO

Decidi, contrariamente aos meus costumes, fazer uma crítica conjunta para essas duas notáveis obras do mestre japonês Kaneto Shindô. A verdade é que não o faço somente pelo fato de serem ambos os filmes do mesmo diretor, mas sim pela extrema semelhança, não apenas de estilo, mas também de enredo, das duas obras. Ao meu ver, O Gato Preto seria um aperfeiçoamento, em múltiplos aspectos que serão esclarecidos futuramente neste texto, dos princípios já presentes em Onibaba – A Mulher Demônio, que leva todo mérito da originalidade.

Primeiramente quero apresentar algumas semelhanças entre as obras. Ambas são formadas por um triângulo principal de personagens envolvendo uma mãe, a nora e um homem interessado na nora. As duas mulheres principais matam samurais nos dois filmes, mudando apenas o motivo pelo qual o fazem. Nos dois está presente um conflito entre prazer x castigo/religiosidade, sendo que este sempre envolve a nora e seu amante. Em ambos filmes o núcleo da história se passa em locações remotas e isoladas. As duas histórias tem como pano de fundo a guerra civil japonesa. Isso tudo fora as semelhanças evidentes que são: mesmo diretor, gênero, atriz principal e alguns outros atores que também estão presentes nos dois filmes.
Talvez por terem a mesma fórmula geral seja tão difícil destacar um filme sobre o outro; ambos são grandes obras. Mesmo assim, arrisco dizer ser O Gato Preto o que mais me chamou atenção, pois achei, como já disse, que houve aqui um refinamento de tudo o que estava presente em Onibaba, mas que ainda podia ser aprimorado. O estado mais visceral do primeiro filme acaba, entretanto, lhe rendendo uma atmosfera mais sombria, o que torna a escolha ainda mais complicada. Em termos estilísticos, os dois filmes são grandiosos; a principal diferença, como já fora dito, está no visual mais refinado de um em relação aquele mais cru do predecessor (o que não é de forma alguma um defeito, pois reforça visualmente toda carnalidade do filme de 1964, enquanto o de 1968 enfoca mais a atmosfera e seu lado mais sobrenatural).

Apesar das semelhanças, Onibaba é terror psicológico enquanto O Gato Preto é claramente terror sobrenatural. Deixando de lado o aspecto de ser ou não fantasioso, a história de O Gato Preto parece mais coerente com o que se espera do filme, além de ter sido melhor construída, em termos de cadenciamento, dentro de sua proposta. Onibabapor sua vez, desemboca na fantástica série de sequências finais, ficando a sensação de que a primeira uma hora de filme é uma preparação - importante eu sei, mas com problemas de dinâmica. Deve ser dito, por outro lado, que há mais conteúdo em Onibaba, enquanto a construção da história e a narrativa de O Gato Preto sejam superiores.

Enfim o que me chocou - e num primeiro momento até decepcionou - nos dois filmes foram os finais, que também são muito parecidos. Ambos dão a impressão de história inacabada, como se o orçamento tivesse se esgotado e faltasse um pedaço do filme. Nada comprometedor, a incompletude é inclusive proposital e esse incomodo é bem-vindo ao reforçar a força de ambos filmes sobre o espectador horas após a visualização. Cinema de primeira.

  NOTA (8.5/10):

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