segunda-feira, 17 de março de 2014

Crítica: Gran Torino (2008)




GUILHERME W. MACHADO

“Have you noticed how you come across with somebody once in a while that you should not fuck with? Thats me.”  

Clint Eastwood é um dos cineastas americanos que mais experimentou gêneros, tendo grande êxito em boa parte deles. É com grande surpresa que se acompanha a trajetória de um dos maiores canastrões do western até se tornar um dos mais sensíveis e tradicionais diretores de Hollywood. Caminhando para o inevitável final de sua carreira, Eastwood retoma, em apenas um filme, grande parte dos temas que permearam seus muitos anos de dedicação à sétima arte. 

Gran Torino surgiu como um atestado final, um resumo, da carreira deste grande diretor/ator. Tudo isso é refletido num personagem que carrega todos esses questionamentos e determinismos que o acompanharam ao longo dos anos. Um esforço que não seria possível sem uma grande atuação, e Clint se puxou; sua atuação definitiva. O peso de uma vida longa é carregado com esforço pelos ombros de Walt Kowalski, um rabugento e extremamente patriótico ex-militar que acompanha seu bairro sendo ocupado quase que em totalidade por estrangeiros, de maioria oriental. Após a morte da esposa – ponto inicial do filme – Walt se vê totalmente deslocado do mundo: o relacionamento com seus filhos, já complicado antes, se torna ainda mais distante; qualquer laço que tinha com a igreja já não se mostra importante, visto que ele apenas a visitava por vontade da mulher; à sua volta, em seu bairro, vê apenas desconhecidos que despreza à primeira vista; e por ai vai. 

Com todos esses elementos que envolvem, principalmente, velhice, religião e preconceito, Clint Eastwood cria uma obra por vezes formulaica, mas muito bem contada e verdadeiramente envolvente. O que está em questão não é a originalidade desses temas, já abordados milhares de vezes, mas sim a qualidade e – por que não? – a simplicidade com que nos são mostrados, entrelaçando-se em algo maior do que uma mera lição moral enjoativa. Clint Eastwood recheia sua narrativa com momentos muito bem dosados de ação e com uma, mesmo que batida, interessante história de amizade. Algumas dessas cenas de ação criam ótimos momentos sem apelar para excessos, nos conduzindo para um final genial que reavalia grandes momentos da carreira do diretor (quem assistir e já tiver visto os outros grandes filmes dele entenderá).
“I blow a hole in your face, than I go on the house and I sleep as a baby. You can count on that. We use to stack fucks like you five feet high in Korea and use you as sand bags”  




Olhando num plano mais amplo, Gran Torino é ao mesmo tempo uma ode e uma despedida ao classicismo cinematográfico. Eastwood seguramente é um dos poucos nomes que ainda mantém a veia Fordiana no cinema atual, e isso vai desde os aspectos formais (seu método de direção) até às questões temáticas. Em meio ao avanço vertiginoso do formato digital, que passa a amadurecer mesmo com Miami Vice (2006), Gran Torino, como uma obra sobre mudança de geração, com seu gritante contraste entre novo e velho, não deixa de proporcionar uma leitura de mudança no próprio panorama do cinema, ainda mais considerando que o próprio Clint interpreta o "velho ultrapassado". E, como tal, é uma brilhante despedida cujo propósito não é, de forma alguma, desmerecer o que está por vir, mas sim reverenciar a influência daqueles que já passaram sobre estes que virão.

Um filme imperdível que entra facilmente entre os melhores, não apenas dos últimos anos, mas como da [brilhante] carreira de Eastwood.  

“Got a light? Me ... I’ve got a light”  

  NOTA (8.5/10):



Nenhum comentário:

Postar um comentário