sexta-feira, 7 de março de 2014

Gravidade (2013)



GUILHERME W. MACHADO

Gravidade resgata um cinema pouco compreendido nos tempos de hoje, ainda que apreciado: o cinema-experiência. Isso quer dizer que o mais importante aqui não é o conteúdo, ou o drama, ou as atuações, ou uma mensagem, mas sim a experiência de assistir ao filme. Desnecessário dizer, por se tratar de tal tipo de filme, que o envolvimento é absurdo.


Foram feitas algumas críticas em relação à falta de – mais especificamente à superficialidade do – conteúdo. É nítido, como já foi explicado acima, que isso não é importante para a obra. Entretanto, é fácil perceber o conflito existencial incutido por Cuarón no personagem de Bullock. Muitos apontam a existência de tal discurso como o ponto fraco do filme, que deveria focar apenas na experiência. Eu, todavia, creio que a experiência do filme já é completa e forte o bastante, abrindo, dessa forma, espaço – mesmo nos seus poucos minutos de duração – para uma válida reflexão sobre a luta pela vida por parte de uma mulher que perdeu todos os motivos para viver (coisa que, de fato, não fazia) e, apenas nessa situação extrema, encontra a força necessária para retomar sua vida e valorizá-la.

Considerando a duração de 90 minutos, não achei rasa a reflexão proposta por Cuarón, pelo contrário, achei um belo complemento para uma obra já grande. Todos os aspectos do filme foram desenvolvidos tanto quanto necessário, sem a necessidade de se alongar em explicações ridículas ou 
– o que teria sido um desastre – flashbacks da vida da protagonista pré-espaço . Dessa forma Cuarón conseguiu, ao mesmo tempo, criar uma atmosfera brilhante de tensão no mesmo espaço (trocadilho não intencional) que usou para levar ao extremo os conflitos internos de sua protagonista. Coisa que, de brinde, abriu o caminho para um surpreendente trabalho de Bullock, sua melhor atuação.

Já é de conhecimento comum a qualidade técnica extraordinária do filme. Desde a fotografia até a trilha sonora, tudo se encaixa perfeitamente numa obra que é um delírio visual e – por que não? – sonoro (chegando a vencer Trilha Sonora, Mixagem e Edição de Som no Oscar). Qual é, afinal, a essência básica do cinema, se não uma experiência audiovisual? E nisso, Gravidade é um marco. Poucas vezes me senti tão imerso numa sessão de cinema como nesse filme. Achava eu, como muitos o achavam, que o filme decairia muito numa revisão, ainda mais em home vídeo. Ao contrário, passei a admirá-lo ainda mais ao rever, apreciando com mais atenção a direção de Alfonso Cuarón agora que estava menos tenso. Não que a tensão tenha passado totalmente – acho que não importa o número de revisões, esse filme sempre será enervante –, mas se torna bem mais tolerável.

Por fim, confesso que tenho um fraco por essas direções gravidade zero, com a câmera vagando livremente pelo espaço em muitos planos longos. Sei que muito do que é feito aqui é puro exibicionismo, mas, francamente, não me incomoda essa faceta de cinema-espetáculo que Cuarón abraça abertamente, e com cada vez menos autocontenção, desde Filhos da Esperança [2006].  A indústria atual (principalmente nesse nicho de Oscar) é tão carregada do pretenso "cinema sério", ou, pior ainda, do "cinema relevante", que gosto da ideia de um filme como esse, que não propõe mais do que uma experiência empolgante de suspense, seja bem recebido pelos acadêmicos.

  NOTA (8.0/10):


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