sábado, 29 de março de 2014

Crítica: Coração Satânico (1987)





GUILHERME W. MACHADO

“How terrible is wisdom when it brings no profit to the wise, Johnny?”

É curioso como esse interessante exemplar de filme de terror satânico tenha passado tão despercebido ao longo dos anos. Se olharmos bem, veremos que o filme conta com a direção de Alan Parker, um diretor bem conhecido, ainda que não tão reconhecido; tinha o elenco encabeçado por Mickey Rourke, o jovem ator “do momento” na época; e contava com uma participação especial de ninguém menos que Robert De Niro. Ao meu ver, Alan Parker assinou embaixo do “esquecimento” de seu filme ao abordar tantos temas polêmicos e pesados na obra, a tornando totalmente inviável comercialmente. Tem filmes, entretanto, que se dão bem justamente por ficarem nas sombras, com seus fãs clubes seletos, mas fervorosos. É o caso de Coração Satânico, que tem seu público alvo devoto o suficiente para render-lhe notas altas em sites de opinião pública, mas que seria alvo de muitas críticas e talvez até tivesse sua imagem enfraquecida caso tivesse sido mais popular.


Fato é que esse peculiar trabalho de Alan Parker, quiçá seu melhor, tem suas qualidades marcantes, mas no conjunto geral não tem a força necessária para se firmar como um clássico do gênero. A atmosfera construída por Parker, numa espécie de mistura entre O Bebê de Rosemary (1968) com Inverno de Sangue em Veneza (1973), é muito eficiente e dá o tom certo para o desenrolar da complicada trama. O maior pecado foi, após passado cerca de uma hora de filme, deixar essa atmosfera em segundo plano e passar para uma investigação mais didática e informativa, desenterrando toneladas de dados sobre a vida de Johnny Favorite que pouco interessam ao espectador e apenas completam a trama demasiadamente, e desnecessariamente, complexa.

“- Are you an atheist?
- Yeah, I'm from Brooklyn.”

O terror, em geral, tem uma premissa simples, o que nem sempre é verdade em relação ao suspense. Essa é inegavelmente uma obra de terror, embora envolva suspense no processo. Os filmes desse gênero podem ser o quão complicado desejarem durante o desenrolar de suas tramas, mas o que todos têm em comum é que no final, mesmo para os espectadores menos atentos, eles são total e claramente compreensíveis. Salvo raras exceções, o terror não acaba de forma confusa ou pouco clara, isso é um privilégio do suspense. Alan Parker, dessa forma, debilita sua atmosfera ao complicar demais sua trama, pois não tem como prender, ao mesmo tempo, o espectador na atmosfera e ainda desafiá-lo intelectualmente a juntar as peças da história. Quando essas duas coisas acontecem simultaneamente, elas tendem a se anular, ou no mínimo, a se enfraquecer. Vale dizer, todavia, que por mais confusa e complexa que tenha sido a história, ela não foi mal feita; seus eventos se encaixam e o roteiro não deixa furos, apenas requer uma atenção maior do espectador, atenção essa que deveria ser dirigida para o terror/suspense em si.

De qualquer jeito, a história conseguiu tirar bons proveitos de certos simbolismos e mistérios incutidos por Parker em seu roteiro. Os flashbacks, que mais intrigam do que informam sobre o que aconteceu em 1943, são um triunfo, pois reforçam a atmosfera com ótimas cenas que intensificam o mistério. Destaca-se aqui a competência do diretor ao filmar, que achou bons ângulos e soube combiná-los com a trilha sonora precisa (coisa fundamental para qualquer terror/suspense), criando excelentes momentos, principalmente nos flashbacks anteriormente referidos. Aqui, dois recursos chamam atenção: a onipresença das cenas do elevador no filme, que compõem uma metáfora valiosa à obra além de ter sido uma peça fundamental na atmosferização do filme, resultando num desfecho criativo com os créditos finais; e o uso, nos efeitos sonoros, da sonoplastia de coração batendo nos momentos de maior tensão, que, assim como o elevador, também foram bem utilizados na finalização do filme durante os créditos finais.

Antes de encerrar esse texto, acho imprescindível tecer um comentário sobre a participação de Robert De Niro no filme. Ainda que curtas, as aparições deram um tom perfeito para a obra, contribuindo com inteligentes diálogos de duplo sentido, que dão várias pistas sobre a revelação final do filme - de certa forma previsível - de forma sutil. O ator estava tão consciente no delicado (pra dizer o mínimo) papel, que o diretor Alan Parker afirmou ter deixado De Niro se autodirigir em cena. Simplesmente.

“You're crazy. I know who I am. You're trying to frame me. You're trying to frame me. Cyphre, I know who I am. You murdered them people. I never killed nobody. I didn't kill Fowler, and... and I didn't kill Toots, and I didn't kill Margaret, and I didn't kill Krusemark, I didn't kill no-one!”


  NOTA (8.0/10):



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