sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Crítica - O Bebê de Rosemary (Rosemary's Baby, 1968)





GUILHERME W. MACHADO

Fazer listas sobre qualquer coisa relacionada ao cinema é muito difícil e, apesar de divertido, não muito relevante. O terror, em especial, é um dos gêneros mais difíceis de listar, competindo apenas com a comédia. Creio que seja porque ambos gêneros são muito pessoais, da mesma forma que cada pessoa ri de coisas diferentes, cada um tem seus medos específicos. Enquanto algumas pessoas sentem intenso medo ao assistir filmes como A Bruxa de Blair, outros simplesmente dão risadas do mesmo, assim que funciona o terror, por isso é tão difícil ordenar seus melhores filmes. É notável, entretanto, que na maioria das listas especializadas no assunto, três títulos destacam-se pela imensa recorrência. São estes: O Iluminado [1980], O Exorcista [1973] e O Bebê de Rosemary [1968].

Em O Bebê de Rosemary prevalece o oculto, o subentendido. Realmente, visto sob a ótica atual, não seria considerado um filme assustador. O que muitas vezes é sobrevisto é que Polaski vai muito além do terror banal e espalhafatoso; ele não se preocupa em fazer o espectador pular da cadeira enquanto assiste, sua verdadeira intenção está em criar uma situação tão perturbadora que não dure meros 135 minutos, mas que fique na mente por mais um bom tempo. Fora o lado paranormal, que nem é o mais importante, é criado aqui o exemplo definitivo de terror psicológico. A paranoia em O Bebê de Rosemary é mais sufocante que o conteúdo demoníaco do filme. A ideia de não poder confiar em ninguém e não conhecer verdadeiramente todas pessoas em sua volta é simplesmente terrível. Acompanhamos com tensão a desesperada Rosemary tentando se desvencilhar destas pessoas que há pouco eram tão próximas e comuns a ela; isso é assustador.

A paranoia é, na realidade, um tema central não apenas desta obra, mas de toda “Trilogia do Apartamento” de Polanski, trilogia essa composta por esse filme junto de Repulsa ao Sexo [1965] e O Inquilino [1976]. Observando a extensa e grandiosa carreira de Polanski mais de longe eu afirmaria ser Chinatown [1974] seu melhor filme, e provavelmente o é se cada filme for considerado individualmente; entretanto, ao se olhar mais de perto fica a tentação de eleger a Trilogia do Apartamento como seu maior feito. Esses três filmes, como Polanski num geral, são verdadeiras fontes de análise para interpretações psicológicas. Todos os personagens relevantes são muito bem construídos, assim como interpretados.

A preocupação de Polanski e seu cuidado minimalista com os detalhes são parte do conjunto de atributos que o faz um grande diretor. Nada acontece em vão, até os pequenos gestos dos personagens fazem parte da composição psicológica dos mesmos. É por causa deste grande grau de detalhamento que filmes como O Bebê de Rosemary crescem exponencialmente a cada revisão, pois sempre se capta mais informações. Claro que para tal resultado o diretor precisou contar com o bom trabalho do elenco. Mia Farrow fez aquela que pode facilmente ser considerada a atuação de sua carreira - não que o parâmetro seja muito alto, mas essa atuação realmente merece todos elogios -, e o elenco de apoio brilha junto da jovem, principalmente a experiente Ruth Gordon, que acabou levando um Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante pelo papel.

A atmosfera, extremamente envolvente, é criada desde a sinistra cantiga inicial até as diferenciadas tomadas de Polaski, que filma com maestria mesmo em lugares com pouco espaço - talento que nos tempos atuais pode ser visto de forma semelhante no cinema do austríaco Michael Haneke. A sombria direção de arte, acompanhada de uma igualmente sombria direção de fotografia, colabora na criação do clima de insanidade. Nessa parte técnica é curioso observar como o filme foge do gótico, da caracterização mais estereotipada dos filmes de terror satânicos, optando por uma abordagem mais realista que muito acrescenta à proposta da obra, tornando o seu terror ainda mais palpável. A sequência do sonho de Rosemary – da noite do bebê – é especialmente perturbadora.


Independente do grau de medo, é indiscutível a veracidade de O Bebê de Rosemary como um filme de terror, e um dos melhores. Apesar de seu ritmo propositalmente lento e cadenciado, sua atmosfera suga o espectador e não permite o desinteresse. Polanski transforma uma história que tinha tudo para ser um filme de terror banal num fascinante exercício cinematográfico e psicológico. Uma aula de construção e desenvolvimento da narrativa acompanhada de uma profunda analise sobre a condição do ser humano nas grandes cidades, cada vez mais isolado, mesmo que cada vez mais cercado de pessoas.



  NOTA:



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