terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Crítica - O Pagamento Final (Carlito's Way, 1993)



GUILHERME W. MACHADO





"- Let me deal with Pachanga. He’s my brother.
- He’s your brother? That son of a bitch would kill his mother for money.
- Most people will."


A história de um homem aprisionado pelo meio ao qual pertence – no caso, a máfia – que tenta desesperadamente se soltar de suas correntes e recomeçar não poderia ter sido contada de forma mais interessante do que essa feita por Brian De Palma. É exatamente disso que O Pagamento Final se trata, uma espécie de versão adaptada moderna da "Alegoria da Caverna", de Platão, com roupagem de filme de máfia. Temos aqui um Al Pacino acorrentado e que vê o mundo de dentro da “caverna” (máfia), ele o vê composto por sombras, não pela realidade. É apenas quando ele percebe a existência fora da “caverna” que pretende se libertar, mas tal coisa não é permitida pelos ignorantes que habitam a mesma caverna; seu final, portanto, é inevitável.

Metáforas a parte, O Pagamento Final retrata a história de Carlito (Pacino), um ex-gangster que, após sair da prisão, decide se libertar da vida do crime. Suas escolhas, entretanto, são limitadas e ele logo se descobre preso – ainda que por apenas um período – a essa vida, até que junte dinheiro o suficiente para dela escapar. Quanto mais Carlito tenta se esquivar do seu passado, mais ele se prende a ele e mais se envolve com as pessoas erradas. De Palma se vale do frágil recurso de começar um filme pelo fim, coisa que raramente produz o efeito apropriado; aqui, todavia, serve magistralmente a proposta do filme, acentuando que nesse mundo não existem exceções ou utopias, a trajetória de um homem é marcada por suas escolhas e seu fim inevitavelmente será o resultado dessas escolhas. Desta forma ele elimina qualquer chance de final melodramático e novelesco já o informando de cara ao espectador.

O rigor visual e o suspense sempre foram os elementos de destaque na filmografia de De Palma, aqui não poderia ser diferente. O cineasta, uma vez livre do seu carregado visual oitentista (que por mais genial que fosse, acabava pesando), alcança o auge de sua estética no cinema. Por mais que a maioria de suas grandes obras esteja concentrada nos anos 80, é notável como os anos 90 fizeram bem a De Palma na parte técnica (fotografia, design de produção, etc). O suspense em O Pagamento Final alcança um de seus maiores picos, com a criação de momentos sublimes sem a necessidade de recursos apelativos como efeitos sonoros exagerados ou excesso de violência gráfica. A cena da entrega no bar de sinuca, por exemplo, é uma aula de tensão e direção; possivelmente uma das melhores da carreira do diretor.

"And they'll say, 'There lies Saso. Used to be Ron.' "

O roteiro também é brilhante. Não abusa de reviravoltas constantes e farsescas e se concentra no drama do protagonista e as consequências de suas ações, cuidadosamente plantadas durante o filme. A criação dos personagens foi muito bem planejada e executada de forma coerente com a história, contribuindo assim para a criação de bons diálogos e abrindo espaço para atuações brilhantes de Al Pacino, absurdamente carismático e envolvente como sempre, e Sean Penn que, pela primeira vez na sua carreira, mostra o estupendo ator que é, roubando a cena e sendo a principal atração do filme na área de atuação.

Seria ousado intutulá-lo de melhor filme de Brian De Palma, até porque certos diretores impedem tais determinismos com suas vastas coleções de obras primas, mas certamente é meu favorito dele. O Pagamento Final, junto de Os Bons Companheiros, representa a recriação dos filmes de máfia/gangster, pois não se limita a ficar na sombra dos clássicos como O Poderoso Chefão, e cria uma nova visão do mundo do crime, fazendo valer cada minuto.


"Sorry, boys, all the stitches in the world can’t sew me together again... Lay down. Lay down. Gonna stretch me out in Fernandez Funeral Home on 109th street... Always knew I’d make a stop there, but a lot later than a whole gang of people thought. Last of the Mo-Rican’s. Well, maybe not the last. Gail’s gonna be a good mom. New, improved Carlito Brigante. Hope she uses the money to get out. No room in this city for big hearts like hers... Sorry, baby, I tried the best I could. Honest. Can’t come with me on this trip, though... Gettin’ the shakes now. Last call for drinks. Bar’s closin’ down. Sun’s out. Where we goin’ for breakfast? Don’t wanna go far... Rough night. Tired, baby... Tired..."

  NOTA:

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