terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Crítica - Apocalypse Now (1979)





GUILHERME W. MACHADO
“You smell that? Do you smell that? Napalm, son. Nothing else in the world smells like that. I love the smell of napalm in the morning. You know, one time we had a hill bombed, for 12 hours. When it was all over, I walked up. We didn't find one of 'em, not one stinkin' dink body. The smell, you know that gasoline smell, the whole hill. Smelled like . . . victory. Someday this war's gonna end.”

O grande clássico de guerra de Coppola começa com uma das mais fantásticas cenas de aberturas já vistas. O ataque de napalm embalado com a famosa música The End, do grupo The Doors, é sinistramente envolvente e exerce, já de princípio, o efeito desejado pelo filme. Apenas vendo esta cena já se tem uma noção do que está por vir, e o filme não desaponta. Fato é que Apocalypse Now, apesar de ser amplamente reconhecido como símbolo do gênero, não é um filme de guerra típico. Ele explora o que há de mais cruel e obscuro no interior de cada um e trás a tona em meio às atrocidades da Guerra do Vietnã. Isso junto de críticas às hipocrisias da guerra, como é esperado dentro do gênero. Deste modo o filme se diferencia dos outros na sua proposta, explorando mais o psicológico dos personagens e a ambiguidade do ser humano entre o bem e o mal.


A história, analisando cruamente, é simples, justamente porque o importante não é a trama de guerra em si, mas sim a metáfora que ela representa. O filme começa com o Capitão Willard (Martin Sheen) sendo chamado de seu repouso para uma missão de volta nas selvas do Vietnã. Ele é informado sobre um general americano que aparentemente enlouqueceu na guerra e se estabeleceu no fim do rio congo com um exército particular que o segue como um messias. Logo após isso o capitão é mandado, num barco com uma tripulação de jovens soldados não cientes da missão, rio acima com o objetivo de “terminar o comando do General Kurtz”.
“We train young men to drop fire on people, but their commanders won't allow them to write "fuck" on their airplanes because it's obscene!”

O filme trata mais da travessia do rio, como uma jornada metafórica sobre o descobrimento da parte obscura do ser humano, do que do confronto entre Willard e Kurtz. Seria o rio como uma estrada sem volta atravessado pelo capitão e que, quando tivesse chegado ao fim, jamais desejaria retorar para as selvas do Vietnã como desejava no início da história. A partir deste ponto Willard jamais enxergaria não apenas a guerra em si, mas também as pessoas e a sua capacidade de fazer coisas terríveis em situações desesperadoras, da mesma maneira.

Não se pode deixar enganar pelos minutos dedicados no filme à participação do general Kurtz, que ganha mais algumas aparições na versão Redux. Ele é um personagem fundamental na trama, não apenas por ser o responsável para o entendimento do “horror” (em suas próprias palavras) que o filme deseja mostrar, mas também pelo que ele representa como soldado alegórico. Ele seria na história um general altamente treinado para os mais altos escalões do exército que, ao se deparar com as diversas barbaridades cometidas na guerra do Vietnã e refletir sobre o que vê, toma medidas drásticas, porém necessárias sob o ponto de vista da vitória. Por fazer isso ele é julgado pelos seus superiores, homens que “assistem” a guerra de fora e não sabem as coisas que realmente ocorrem, como assassino e louco. Basicamente ele representa um soldado de alto nível que foi para o campo de batalha e não se conformou com as coisas que viu, ao tentar melhorar a situação ele é tido como criminoso.

“What do you call it when the assassins accuse the assassin? A lie.”

Além de ser um filme de guerra que oferece profundas reflexões sobre a natureza humana, Apocalypse Now também é uma perfeitamente esculpida obra visual. Conta com uma grande quantidade de belas cenas marcantes, como a famosa cena do ataque do esquadrão aéreo comanado por Bill Kilgore (Robert Duvall) ao som de ”A Cavalgada das Valquírias” de Wagner. O trabalho de fotografia 
– do gênio Vittorio Storaro – foi o protagonista destas cenas, sendo recompensado com a vitória na cerimônia do Oscar em 1980. Nas atuações dou maior destaque para a de Robert Duvall, apesar de ser Marlon Brando o maior nome do elenco. Os dois tiveram papéis curtos no filme e, apesar do papel de Brando (general Kurtz) ser mais importante na história, foi Duvall que arrasou no seu personagem de tenente-coronel surfista que chega ao ponto de atravessar uma parte do rio pelo lado mais difícil para conseguir melhores ondas, protagonizando uma famosa fala “Charlie don't surf!”. Brando por outro lado fez uma atuação que em nada foge do padrão. Recebe algum destaque mais pela força e interesse que o personagem em si tem (independente do ator que o represente) e também pelo peso do seu nome.
“The horror ... the horror...”
Com certeza Apocalypse Now é um filme de guerra único e marcante na vida de quem o assiste. Possui um poder quase inigualável em algumas de suas sequências e também uma das melhores reflexões sobre o mal existente em cada um. É uma jornada de autoconhecimento não apenas do protagonista, mas de todos que o assistem, se entendendo melhor como pessoa e como ser capaz de coisas cruéis. Um marco imortal no cinema e uma grande obra prima no currículo de todos envolvidos em sua criação.



  NOTA:

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