quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Crítica: Marcas da Violência (2005)


GUILHERME W. MACHADO

Considero Marcas da Violência o melhor filme da nova fase de David Cronenberg, que também é minha favorita dele. Fase essa que consiste em filmes de suspense / drama com uma abordagem mais realista e violenta, fugindo um pouco - embora sem abandonar temas comuns de sua carreira - do body horror que o consagrou nos anos 80. Cronenberg entra, portanto, num período mais maduro de sua carreira, sem perder seu inegável talento como diretor, apostando-o num drama familiar com uma irresistível roupagem de suspense.

Tom Stall (Viggo Mortensen) é um simples pai de família e pequeno proprietário em uma pequena cidade do interior dos Estados Unidos. Sua vida é tranquila e normal até que seu café é assaltado por dois assassinos fugitivos. Tom reage de forma surpreendente, matando os dois e salvado as pessoas que ali estavam. Ele vira o herói da cidade e, devido a sua publicidade, um chefe da máfia em Filadélfia vai ao seu encontro e afirma que ele (Tom) é na verdade um assassino profissional chamado Joey Cussack. Enquanto isso Tom tem que lidar com as crises que estão acontecendo em sua casa, seu filho está tendo problemas na escola e o relacionamento com a sua mulher está abalado.

A partir deste argumento, Cronenberg constrói um interessantíssimo suspense que entretém sem dificuldade e ainda apresenta um belo quadro dramático, refletindo sobre as relações de uma típica família americana, numa das melhores desconstruções do "american dream". O roteiro se mostra coerente sem se tornar cansativo ou opaco e a direção cria um ótimo - nunca caindo em excessos - clima de suspense que envolve o filme numa atmosfera de dúvida. Tudo na obra é preciso, demonstrando um Cronenberg muito centrado e mais contido. Até mesmo os excessos nas cenas de ação convêm, aumentando o impacto dramático da história e elevando a intensidade dos conflitos internos e familiares de Tom. Cronenberg abusa da chamada licença poética e cria, a partir da segunda metade do filme, um espetáculo visual e sanguinário típico do cinema moderno. Ainda assim, a forma como tudo é filmado e o estilo da narrativa (que se assemelha a filmes como Fargo [1996]) é bastante realista e comedida, conferindo uma muito bem-vinda dose de seriedade dramática à obra.

A aparente simplicidade do argumento de Marcas da Violência [2005] é o que faz com que o filme seja tão eficiente em trabalhar diferentes temas de forma tão sutil, mas alcançando resultados tão contundentes. Pelo drama totalmente particular de Tom Stall, passam questões bem universais, como um dos maiores motes da filosofia: quem sou eu? A crise de identidade, não em termos psiquiátricos de múltipla personalidade (o filme até zomba desse recurso já excessivamente utilizado), mas de uma reflexão interna sobre sua própria essência e sobre o inevitável questionamento se "é possível fugir do passado?" Esses elementos somam-se ainda ao impecável retrato da família americana que vive às margens do "sonho", e ao brilhante jogo de aparências feito por Cronenberg, nos mostrando o quão enganosas, mas ao mesmo tempo convincentes, essas podem ser. Com tantas qualidades, sequer é necessário entrar em méritos estruturais do roteiro - que sempre acerta o timing de aplicar suas reviravoltas (plot twists) e dispõe dum tempo adequado para construir os personagens -, mas seria um desperdício não fazê-lo.
Também são dignas de destaque as atuações que excederam, e muito, a média neste tipo de filme. Viggo Mortensen, um ator claramente subestimado, tem uma performance invejável enquanto o elenco coadjuvante não dá espaços para más atuações. Ed Harris e William Hurt carismáticos como sempre e Maria Bello acima do seu normal. A direção de elenco, geralmente secundária em filmes de ação, se torna muito importante nesse filme, pois um de seus alicerces justamente está nas relações familiares, que sempre exige desempenhos críveis.

Num breve resumo: Marcas da Violência é um monumento cinematográfico.

  NOTA:

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