quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Crítica: Um Corpo que Cai (Vertigo, 1958)




GUILHERME W. MACHADO

“- Of all the people who have been born... and have died... while the trees went on living.
– Their true name is Sequoia Sempervirens: always green, ever-living.
– I don't like them.
– Why?
– Knowing I have to die... ”
Não há filme que não seja mais valorizado quando assistido no cinema; essa obra prima de Hitchcock, entretanto, clama pela telona, que potencializa muito seu efeito sobre o espectador. Um Corpo que Cai continua sendo maravilhoso em home vídeo, sem dúvidas, mas só quando se tem o privilégio de assisti-lo numa sala de cinema é que se percebe plenamente toda sua grandiosidade. Nota-se já nos créditos iniciais (muito interessantes, por sinal) o grau de imersão que Hitchcock busca. 

Nunca haverá uma lista dos maiores filmes de todos os tempos sem que haja discórdia; a da revista Sight and Sound, todavia, é de longe a mais respeitada e mais bem feita até o atual momento. Essa lista dupla – dividida entre lista dos críticos e dos diretores – conta com a participação de mais de 800 dentre os maiores críticos e diretores ao redor do mundo e, por isso, é a lista mais considerada. Na sua última edição (a cada dez anos a lista é votada novamente), pela primeira vez, um filme desbancou Cidadão Kane, que nunca tinha saído do primeiro lugar desde que lá entrou nos anos 60. Um Corpo que Cai foi eleito, com boa margem de votos, o melhor filme de todos os tempos, fato inédito no mundo do cinema no qual a enorme maioria das listas são encabeçadas pelo filme de Orson Welles. É justo? Difícil dizer, porém admito que gostei da mudança de ares.  
“Ah, but only one is a wanderer. Two, together, are always going somewhere.”  
A história de Um Corpo que Cai está entre as mais bem elaboradas já vistas nos filmes de Hitchcock. História essa que, desde então, serviu de grande influência para outros filmes, principalmente no gênero suspense – podendo ser encontrados fortes traços seus, por exemplo, na obra prima Dublê de Corpo [1984], de Brian De Palma. Seu grande trunfo, por outro lado, reside nas imagens criadas pelo diretor. O jeito como Hitchcock alimenta de modo extremamente intrigante o mistério que permeia a primeira metade do filme (um pouco mais que a metade para ser exato) para depois desconstruir totalmente a história e recomeçar com outro foco é absolutamente genial, algo parecido (embora de resultados muito diferentes) com o que viria a fazer em Psicose, dois anos depois.

Um Corpo que Cai, dentre muitas coisas, é um grande culto à imagem. Hitchcock entrega-se como nunca antes em sua carreira ao fascínio que as imagens podem causar sobre os indivíduos. Pode ser a imagem de Carlotta sobre Madeleine, ou a imagem de Judy transformada em Madeleine sobre Scottie, não importa. É desse jogo de construção e desconstrução de imagens poderosas que o filme se alimenta, estabelecendo fatos que naqueles momentos parecem verdades absolutas, mas que vão ruindo com o desenvolver da obra que, muito ambiciosamente, mascara por muito tempo o rumo que pretende tomar, levando o espectador numa viajem de contemplação para atingi-lo de uma forma irreversível ao fim.

A fotografia do filme – trabalho genial de Robert Burks –, figura, nessas circunstâncias, numa posição quase que de protagonismo. Muito inventiva, inclusive pelo conhecido fato da combinação do zoom com o movimento reverso da câmera para criar o efeito de vertigem, ela vai aqui além do uso magistral das cores (que assumem, em alguns momentos, um caráter expressionista) para criar uma atmosfera quase onírica, com a imagem enevoada, como que botando em dúvida a materialidade de toda situação. Todo filme, aliás, tem essa sensação meio surreal que parece mesmo produto de um sonho perturbador. Pelo menos é assim que me sinto quando o assisto.

Dentre todas as riquezas de Um Corpo que Cai – e são tantas que devo selecionar quais abordar – é possivelmente o fator psicológico a mais notável delas. Nos deparamos com um dos melhores retratos da obsessão dentre todas as artes; obsessão de um homem, que não tem nada de interessante em sua vida pós-aposentadoria forçada, por uma misteriosa e problemática mulher. No meio de toda essa confusão, que envolve também os personagens secundários da trama, há um dos personagens mais subestimados da sétima arte: Midge, ex-noiva e amiga do protagonista que ainda é apaixonada pelo mesmo, ainda que tenha ela encerrado o noivado. Há toda uma riqueza de detalhes nas relações entre essas figuras que não cabem apropriadamente num texto, pois são nuances que muito tem a ver também com as imagens.

“I'm not making it up. I wouldn't know how. She'll be talking to me about something, nothing at all, and suddenly the words fade into silence and a cloud comes into her eyes and they go blank... and she is somewhere else, away from me... someone I don't know. I call to her and she doesn't hear. And then with a long sigh she is back, and looks at me brightly, and doesn't know she's been away... can't tell me where... or why...”  

Por fim, sempre acho curioso observar a tamanha segurança de Hitchcock com a sua direção, ao ponto em que chegou a fazer, nesse filme, uma sequência de cerca de 10 minutos sem uso de diálogo. Algo que em condições normais seria tão indigesto ao público foi feito aqui de forma tão perfeita que a maioria dos espectadores nem percebe que isso aconteceu. Tamanho é o envolvimento com a obra.


“I heard voices...” 

  NOTA (10/10):

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