quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

O Lobo de Wall Street (2013)




   GUILHERME W. MACHADO

“- I did hear you're not supposed to make direct eye contact.  If you  look at them too long in their eyes they get freaked out - their wires cross. - I think there’s a limit to how far  we can go... I mean we can throw shit at him and... - They have a lot of feelings. - There’s a specific thing that they’ll do. You can throw him at a dart board but if you want him to show his cock or  - Yes, that’s what this guy does. -That’s his gift.  - Can we also bowl with him?  - His brother is actually the bowler.”  


Martin Scorsese extrapola todos os limites da baixaria para fazer sua nova obra prima: O Lobo de Wall Street. É, sem dúvidas, um filme de excessos, e ele se vale disso. Não há espaço para moderações nas atuações, nos movimentos de câmera, nos diálogos e nem na trilha sonora. Um filme frenético. Ele está, portanto, no mesmo ritmo daquilo que retrata: a loucura diária da bolsa de valores em Wall Street. Poucas pessoas filmariam esse material com mais autenticidade e autoridade do que o corajoso e experiente Scorsese, que escancara aqui, com um apurado senso de humor, as excentricidades do mundo de Wall Street, mas que no fundo nada mais é do que mais um desmembramento de um dos temas mais recorrentes de sua carreira: uma história de ascensão e queda de um homem. 

A duração de três horas é, geralmente, um fato desencorajador. Até acho que o filme poderia ter sido um pouco mais curto (cerca de 150 min seriam o suficiente), o que o tornaria ainda melhor. Isso não é, todavia, o suficiente para diminuir sua força. A habilidosa montagem de Martin e Thelma (sua montadora há anos), junto das constantes risadas, não deixam o filme ficar arrastado. Há também um processo de intensificação do filme que progride de uma espécie comédia de costumes (sobre Wall Street) para um estudo mais denso e depravado de personagem. Essa transição pode ser um pouco incômoda para os que apreciavam o tom mais leve da primeira metade da obra, mas a verdade é que o filme de Scorsese não tem, verdadeiramente, a intenção de ser agradável  embora possa sê-lo acidentalmente  e sim violento, uma violência mais discursiva, ainda que mostre também seu lado físico em passagens eventuais.

O Lobo de Wall Street é mais um poderoso tour de force de Scorsese no alto mundo de poder do capitalismo, quase duas décadas depois do brilhante Cassino (1995). O que começa como uma obra do mais alto entretenimento, com muitas risadas e situações envolventes, vai crescendo em densidade e mostrando um retrato perturbador do quanto a diversão de alguns nesse universo específico pode custar àqueles com menos a ganhar e muito a perder. A falta de humanidade que o filme expõe é preocupante, crítica que só se expande com a repercussão que teve no público, que em geral são mais entretido do que impactado. Muito como acontece com o Tarantino, há uma miopia social no que tange a violência no cinema (e, de certa forma, na própria vida cotidiana); O Lobo de Wall Street, como, por exemplo, Django Livre são filmes trágicos vistos como peças de entretenimento.

“Actually the madness started on our very first day, when one of our brokers, Ben Jenner, christened the elevator by  getting a blowjob from a sales assistant.Her name was Pam and to her credit, she did have an amazing technique, with this wild twist and jerk motion.  Eventually Ben married her, which was pretty amazing considering she blew every guy in the office. He got depressed and killed himself three years later.”  

A direção foi um show. Extremamente gratificante ver Scorsese tão solto, personagens batendo na câmera, mescla com a linguagem publicitária, quebra da quarta parede, slow motions exagerados... Scorsese usa e abusa de tudo o que pode para criar esse espetáculo quase carnavalesco que é O Lobo de Wall Street, além de demonstrar um senso visual invejável. Há vários momentos de pura inspiração, como o almoço entre os personagens de Matthew McConaughey – que, com poucos minutos, roubou o filme – e Leonardo DiCaprio; o diálogo imaginário entre Dujardin e DiCaprio; ou mesmo a célebre cena da paralisia induzida pelas drogas. Tudo em O Lobo de Wall Street é excesso, mas Scorsese dá um jeito de fazer funcionar em prol da narrativa, que busca justamente expor esse mundo de superfícies, no qual a violência ocorre mais por telefonemas do que tiros.















As atuações seguiram a onda de exageros do filme, mas no bom sentido. DiCaprio, como sempre, da um show de espontaneidade e expressão; Jonah Hill, que eu não gosto muito, surpreende e abraça completamente a proposta de seu personagem; os próprios coadjuvantes de luxo estão em alto nível nas suas poucas cenas. Espero que o Oscar não siga sua irritante tendência de ignorar DiCaprio, que merece não apenas a indicação, mas a vitória. Aliás, espero que a academia não siga sua tendência em ignorar esse tipo de filme num geral, pois não apenas DiCaprio, mas também Scorsese e o filme em si merecem levar o grande prêmio. Sendo que o Oscar de direção só seria discutível, a meu ver, entre Scorsese e Alfonso Cuarón, ninguém mais.

“- Under what circumstances would you be obligated to cooperate with an FBI or U.S. Justice Department investigation? - Ca depend. - Ca depend?  Ca depend on what? - Whether America plans to invade Switzerland in the coming months. - Want me to see if tanks are rolling down the Rue de la Croix? - (V.O) What I’m asking, you Swiss dick, is are you going to fuck me over. - (V.O) I understand perfectly, you American shitheel.”  


  NOTA (8.5/10):

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