sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Crítica: Dr. Fantástico (1964)


GUILHERME W. MACHADO

"- Have you ever seen a commie drinking watter?
- Well, no I ... I can`t say I have, Jack.
- Vodka, that's what they drink, isn`t it? Never Water.
- Well I ... I belive that`s what they drink Jack, yes.
- On no account will a commie ever drink water, and not without a good reason.
- Oh, ah, yes. I don`t quite see what you`re getting at, Jack.
- Water, that`s what i`m getting at. Water. "


Dr. Fantástico parece estranho vindo de Kubrick. Um diretor conhecido pela sua frieza (que eu acho bem discutível) e violência se aventura em uma comédia humor negro de refinamento e inteligência raros. Tudo bem que não foi o único nem o primeiro filme no estilo do diretor, pois este já havia flertado com o humor negro em Lolita (1962), porém de forma bem menos central, uma vez que aquele filme tinha um compromisso mais sério com o clássico da literatura que representa e as polêmicas que o envolvem.
Tendo tomado a decisão de trabalhar com a comédia, Kubrick não podia ter escolhido melhor o ator. Peter Sellers foi perfeito no desempenho de seus três papeis. Não é a toa que o ator virou um ícone dos filmes de comédia e boa parte deste mérito vem deste filme. Seus papeis são distintos e engraçados por diferentes motivos, o que comprova sua versatilidade cômica. Essa foi uma grande sacada de Kubrick, pois ao por o único ator realmente competente (comicamente falando) do filme a interpretar múltiplos personagens, ele conseguiu tapar facilmente a lacuna na parte da encenação. Não tenho, com isso dito, a menor intenção de ignorar o excelente trabalho de George C. Scott – possivelmente seu melhor – que faz uso de um overacting perfeito, o que não é crime algum numa comédia, e rouba algumas cenas. Seu arsenal de expressões chama atenção até quando está no segundo plano.

A história do filme é brilhantemente insana e cai como uma luva para a reflexão que Kubrick busca: um general louco, que tem uma teoria conspiratória de que os comunistas estejam contaminando os “fluídos corporais” dos americanos, põe em prática um plano de guerra emergencial, sem motivo ou autorização, para realizar um ataque nuclear à União Soviética. Enquanto isso, o presidente dos Estados Unidos reúne seus generais e conselheiros de guerra no pentágono e tenta convencer o primeiro ministro soviético de que o ataque foi um erro humano. Nesse meio tempo eles descobrem que os soviéticos haviam criado um dispositivo emergencial automático e impossível de ser desativado que causaria um apocalipse radiativo caso eles sofressem um ataque nuclear.
As piadas não são de dar gargalhadas, mas não deixam de arrancar bons risos. Somente um tempo depois do filme que percebemos que ainda estamos rindo de suas cenas, elas ficam na memória. O objetivo não está em criar gags visuais ou se valer da comédia pastelão para fazer o público rir. Kubrick procura criticar a Guerra Fria com a melhor arma possível: a ironia. Vários filmes já tentaram passar mensagens anti-guerra através do drama e do choque - o próprio Kubrick já o fez como poucos noutros trabalhos -, mas é o deboche e o cinismo que realmente grudam na cabeça. A sutileza com que são feitas as piadas é de tamanha maestria que algumas chegam a passar desapercebidas pelo espectador, que redescobre Dr. Fantástico e seu brilhante roteiro a cada revisão.


"Gentleman, you can't fight in here. This is the war room!"

Por mais que o cinema não tenha comprometimento com a história, o filme também foi um ótimo retrato - mesmo que debochado - do período da Guerra Fria onde o mundo temia uma guerra nuclear. A tensão que ronda o filme inteiro sobre se o ataque vai acontecer nada mais é que uma representação dos temores das pessoas na época, por mais que pareça ficção para nós hoje. Na época (o filme foi feito durante a tal guerra), todavia, ninguém ousava brincar com o assunto, o que ilustra o caráter provocativo e visionário de Kubrick. A cena final é brilhante, um acerto completo, até mesmo na escolha da música.

Dr. Fantástico é o exemplar definitivo do humor ácido e a refinada ironia de Kubrick – características já esboçadas no magistral Glória Feita de Sangue [1957], que não é uma comédia, e no já citado Lolita. O livro em que o diretor baseou-se para fazer o filme é dramático e foge de qualquer tipo de insinuação cômica, fato que nos faz perceber a autoridade de Kubrick sobre seus filmes e seu inexplicável sexto sentido como diretor que o permite trilhar qualquer caminho (drama, comédia, apocalipse, violência, ficção, épico,...) e sempre aproveitar o máximo de seu material.

"Mein Fuhrer, I can Walk!"

  NOTA (9.5/10):

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