sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Crítica - Blue Jasmine (2013)



Guilherme W.  Machado


Woody Allen reencontra sua veia dramática e filma sua versão contemporânea de Uma Rua Chamada Pecado [1951]. Não que a obra de Tenesse Williams (escritor da peça Um Bonde Chamado Desejo, que deu origem ao clássico de Elia Kazan) tenha sido um fator arbitrário na obra de Allen, pelo contrário, ele parte do mesmo princípio, mas impondo seu estilo; sem ainda abandonar sua referências tradicionais Allen traz para os tempos atuais, e para uma sociedade um pouco mais perto da nossa, o drama de uma elegante socialite de meia idade que perde tudo e começa a ter um surto psicológico.

O elemento chave para o bom funcionamento do filme foi a estupenda interpretação de Cate Blanchett, que mostrou não ter motivos para temer as inevitáveis comparações com Blanche Du Bois, magnificamente interpretada por Vivien Leight. A atuação de Blanchett nos envolve em seus dramas e expõe com clareza sua visão nada realista da situação. Isso, junto da montagem em tempo não linear, faz com que tenhamos opiniões divididas com relação à personagem, alternando constantemente nossos sentimentos em relação a ela. Outro acerto no elenco foi a britânica Sally Hawkins, que se sai muito bem no papel e é a única que consegue ficar em cena com Blanchett sem sentir vergonha, pois o resto do elenco deixa bastante a desejar. Alec Baldwin já deveria estar cansando de interpretar sempre o mesmo personagem e o resto mal vale comentários. Isso não pesa muito porque Blanchett e Hawkins estão em nível alto o bastante pra segurar todo elenco.


Uma homenagem não é algo do qual se espera originalidade, caso contrário trairia seus próprios princípios. Assim como em Memórias [1980] Allen homenageia claramente [1963] e em Setembro [1987] é uma ode à Sonata de Outono [1978], esse filme é inspirado em Uma Rua Chamada Pecado [1951], como já disse. Usar originalidade como argumento contra esse filme nada mais é do que pura implicância com o diretor ou amor cego ao filme de Elia Kazan. Algumas pessoas tendem, ao invés de encarar o filme como uma nova – e interessante – visão de uma história clássica, olham para Blue Jasmine como um desafio, talvez até um desrespeito, em relação ao original. Como um filme feito agora, em 2013, poderia afetar qualquer outro filme feito antes? Ainda mais um que já data 62 anos. Não é esse um caso de reciclagem inútil e desqualificada de ideias, como já aconteceu com várias outras grandes obras do passado que ganharam refilmagens – ou mesmo filmes apenas baseados em suas ideias – deprimentes.

Além da atuação de Blanchett, deve-se destacar ainda os outros dois elementos principais que sustentam o filme. Um deles é o ótimo roteiro de Woody Allen, que constrói um quadro psicológico ainda mais complexo do que aquele de Uma Rua Chamada Pecado para sua protagonista e ainda consegue acrescentar uma série de críticas sutis à alta e à baixa sociedade, expondo fraquezas das duas sem jamais tomar partido. A neutralidade, aqui, se mostra valiosa, aproximando um pouco Allen do que Buñuel fez no seu Viridiana [1961], ao disparar críticas mordazes e irônicas contra diferentes tipos sociais. O outro é a boa montagem que alterna, com timing perfeito, o passado e o presente da protagonista, nos passando informação em doses homeopáticas sobre como ela chegou no estado em que está.

Allen revive, com Jasmine, uma faceta que há um bom tempo não se via, sendo a última vez que realizou um filme nesse estilo foi Match Point [2005], um drama mais sério e crítico sem a perda de seus questionamentos mais característicos e seu humor, mesmo que mais contido. Não que não tenha feito grandes filmes recentemente, pelo contrário, Meia Noite em Paris [2011] figura entre seus melhores e Para Roma com Amor [2012], por mais que tenha suas falhas e não chegue a ser um “grande filme”, ainda apresenta ótimas ideias, principalmente na área cômica, pena que seja tão pouco valorizado apenas por ser menor que muitos de sua obra geral.


NOTA



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